E se um bombeiro morrer por estar exausto?

E se um bombeiro morrer por estar exausto?

É poca de incêndios é época de circularem na via pública centenas de viaturas de combate a incêndio das diversas corporações de bombeiros existentes em Portugal. Tal é sinônimo de aumento da probabilidade de surgirem acidentes rodoviários, essencialmente devido ao facto dos demais condutores não terem formação adequada para interagir com a presença destes.

Acontece que, o maior dos problemas não está na verdade de existirem mais viaturas cujo condutor é um bombeiro, mas sim que esse bombeiro, eventualmente, será um bombeiro voluntário, que foi para o socorro após um dia de trabalho, sem ter descansado.

Um repouso que não aconteça pode originar um acidente mortal

Quando a chamada é efectuada, o bombeiro voluntário desloca-se prontamente para o quartel, no sentido de se juntar à sua equipa, para socorrerem terceiros. Esse auxilio não é regateado. É para socorrer, socorre-se. No entanto, esse bombeiro não sabe quanto tempo irá demorar esse socorro ou que dificuldade ele pode acarretar-lhe. Mas vai.

Nesta época de Verão, o maior socorro que os bombeiros prestam é o de se deslocarem para teatros de fogo florestal. Nesses locais, qualquer bombeiro que seja, por mais experiência que tenha, está sujeito a um desgaste elevadíssimo e a um nível de desidratação brutal, já para não falar no escasso repouso e débil alimentação.

Se pensarmos que esse bombeiro pode ser um motorista de uma empresa de transportes rodoviários, uma daquelas em que os motoristas têm de respeitar tempos de repouso, e bem, para efeitos de segurança rodoviária, não é compreensível como permite a legislação portuguesa e europeia que, esse bombeiro, possa andar numa frente de fogo, a sofrer a violência que essa situação provoca, durante não se sabe quantas horas, sem repouso, e depois assuma a sua posição de motorista profissional e conduza por mais uma quantidade de horas seguidas.

Não se compreende, por que é autuado esse condutor, que também é bombeiro e deixa de descansar as horas que a legislação impõe, e bem, para garantir a segurança rodoviária, quando excede nalguns minutos o tempo admissível, mas não o é quando passa mais de doze horas ao volante de um automóvel pesado de combate a incêndios. São interesses, mas não do bombeiro.

E ainda não compreendo que segurança rodoviária promove a legislação portuguesa quando permite que esse bombeiro conduza centenas de quilómetros, em estrada e fora dela, cansado, desidratado e sem os quinze e trinta minutos de repouso efectuados em cada quatro horas e meia de circulação.

Se um bombeiro morrer de acidente de viação ou matar, tendo como causa o facto de estar exausto de tanta condução, desidratação e falta de cuidados acrescidos ao desgaste que um incêndio proporciona, não será a bandeira sobre o seu caixão e um qualquer ministro a proferir palavras bonitas e de ocasião que irão resolver a perda.

Neste Verão, solicita-se aos condutores bombeiros que não vão alem das suas capacidades humanas, pois um mato apagado não substitui a falta da sua ausência familiar devido a um acidente rodoviário.

Foto¦ Daniel Vicente