As letras da sinistralidade rodoviária

Sinistralidade rodoviária

Muito se tem escrito e falado sobre sinistralidade rodoviária, mas muito pouco se tem feito para a evitar ou, pelo menos, minimizar as suas consequências socioeconómicas.  Podem esgrimir-se os mais vastos argumentos na defesa dos milhares, quiçá milhões de euros ou dólares gastos na investigação, por parte das diversas marcas de automóveis ou motociclos, no desenvolvimento de sistemas de segurança passiva e ativa, no entanto o busílis da questão não se encontra deste lado do tabuleiro, no jogo da sobrevivência rodoviária. O grande problema encontra-se nas mãos do poder politico e legislativo, assim como nas mãos de cada um de nós, nomeadamente nas nossas atitudes e comportamentos rodoviários.

Vamos por partes, no sentido de percebermos a quota responsabilidade de cada um destes elementos.

As Marcas

Os construtores têm ao longo dos anos investido milhares de euros, dólares ou tenes no desenvolvimento de viaturas capazes de garantir uma maior fiabilidade, conforto e segurança aos utilizadores. podemos pensar que tal facto se prende com uma preocupação primária de proteger os utilizadores das ditas viaturas, mas se efetuarmos uma análise mais “fria”, constatamos que tal não é totalmente verdade, mas sim se trata, em grande percentagem, de uma manobra de marketing desenvolvida pelas construtoras. Se é certo que quanto maior for a segurança proporcionada aos hipotéticos compradores maior será a possibilidade de eles serem reais, não é menos certo que se houvesse um total interesse em promover uma segurança global, verificaríamos que os sistemas desenvolvidos equipariam todos os veículos, independentemente da gama e não apenas, numa primeira fase, os de gama alta.

Poder politico

Tem o poder politico as ferramentas capazes de desenvolver os mecanismos legais, afim de promover a formação e sensibilização dos cidadãos, assim como propor leis capazes de dissuadir à prática de comportamentos de risco. No entanto, este mesmo poder politico não se consegue afastar de lobbies existentes ou criar defesas que suportem pressões externas, daqueles que não olham a meios para atingirem os seus fins lucrativos. Veja-se o exemplo da Lei que penaliza os condutores que conduzem com taxas de álcool mais elevadas. Existem países que com politicas de prevenção mais ativas, onde a taxa de álcool admissível é baixa, conseguem diminuir esta causa na responsabilidade do acidente. Olham em primeiro a segurança de cada um, não se subjugando aos interesses dos vitivinicultores e seus argumentos economicistas. Tendo o poder politico esta “força”, não é admissível que numa Europa que se diz única, hajam países com taxas de álcool mais baixas e preventivas e outros com taxas elevadíssimas.

Poder legislativo

A feitura de uma lei de âmbito rodoviário deverá ter sempre presente e como prioritário a segurança rodoviária e a prevenção de sinistros. Deverá estar em linha com a realidade da rede rodoviária, seja ela urbana ou não urbana. Ao redigi-la, deverá o legislador ir para o terreno, conhecer as diversas realidade existentes à margem dos grandes centros urbanos e abster-se de interesses políticos/ partidários olhando sempre para um interesse global. Ao ser apresentada uma lei a uma Assembleia, esta deverá ser discutida, analisada e melhorada, dentro de um consenso exequível, de modo que ao ser aplicada, seja aplicável. Capaz de proteger quem respeita e punir efetivamente quem prevarica.

Cada um de nós

Cada um de nós é dono de si próprio, senhor(a) dos seus atos, atitudes e comportamentos, seja enquanto cidadão, seja como interveniente no sistema de circulação rodoviário. E é aqui que temos de avaliar não apenas os nossos comportamentos como intervenientes diretos, mas também as nossas atitudes como espelho que somos ou desejamos ser perante os olhos dos outros utentes e principalmente dos nossos filhos, netos, educandos ou tutorados. Cada um de nós é apenas mais um no compto geral dos utilizadores do espaço público. No entanto, uma atitude ou um comportamento errado dessa unidade, supostamente insignificante ao global, pode e afeta muitas vezes o bem estar de dezenas, centenas ou milhares de outras unidades, não apenas economicamente, mas também social e emocionalmente.

Sinistralidade rodoviária

Quando olhamos os números da sinistralidade rodoviária, olhamo-los sempre pelo lado que melhor nos convêm e menos ou nenhuma responsabilidade nos atribui. Mas, se olharmos esses valores pelo outro lado, o lado da busca da nossa responsabilidade, da nossa dor de perda, verificamos que cada um de nós tem uma “mea culpa” nas ocorrências rodoviárias. Vejamos:

– Procura sempre uma passadeira para atravessar a faixa de rodagem, ou desloca-se para uma que esteja a menos de 50 metros do seu ponto?

– Ensina e reforça a ideia, ao seu filho ou educando, que ele deve sempre esperar que os veículos parem para ele atravessar? Demonstra-lho?

– Quantas vezes já protestou veemente com outro condutor, utilizando gestos ou termos verbais inadequados ou ofensivos, estando o seu filho presente?

– Quantas foram as vezes em que já se esqueceu de fazer um “pisca” para ultrapassar ou mudar de direção, mas protesta com o outro condutor porque ele também não sinalizou?

– Já teve algum acidente rodoviário com culpa? Houve feridos? Faz ideia os custos para o erário publico que essa intervenção de socorro teve?

– Consegue quantificar a perda de um pai/ mãe por parte de uma criança? Consegue quantificar a dor? Já alguma vez pensou nisto?

Se ficam os nossos responsáveis políticos e institucionais muito satisfeitos, em rejubilo, quando verificam que houve uma diminuição nos valores anuais da sinistralidade rodoviária, de 700 casos para 650, deverão é ficar muito preocupados por ainda existirem muitas famílias a sofrerem a perda dos seus entes queridos, assim como o facto de muitas crianças ficarem psicologicamente afetadas para uma vida inteira.

Podemos nós fazer alguma coisa para melhorar a segurança rodoviária? Não só podemos como devemos, essencialmente alterando as nossas atitudes egoístas e mesquinhas e os nossos comportamentos de risco.