Um dia perfeito

dia perfeito

Hoje levantei-me da cama com uma sensação que tudo ia correr bem no meu dia. Que seria um dia perfeito. Normalmente acordo com vontade de fazer com que o dia decorra bem, sem atritos, com as expectativas a serem superadas para mim e para os outros, mas nem sempre é assim.

Hoje é um desses dias especiais. Apesar de ser Dezembro o sol brilha no céu e não está frio, é uma boa manhã de fim de outono. A minha expetativa para o dia á a melhor, nesse momento recordo-me que tenho que conduzir até ao trabalho. Como será a viagem?

Vai correr bem, penso eu numa tentativa de não perder o ânimo matinal, não podemos deixar que as experiencias de dias anteriores nos impeçam de viver bem o presente. Enfim, tem dias que nos sentimos assim, otimistas.

Depois da rotina matinal cumprida, inicio a minha deslocação, como moro perto do centro da cidade geralmente logo ao sair de casa apanho algum trânsito, hoje não existe praticamente nenhum. O primeiro sinal que encontro é um STOP, eu páro.

Aqui geralmente observo os outros condutores a acelerar, mesmo estando distantes do entroncamento, de modo a passarem à minha frente, ou de quem lá esteja. Mas hoje todos pareciam calmos. “Foi fácil.” Pensei eu e continuo a minha viagem.

Passados 100 metros existe uma passadeira, onde muitos estudantes atravessam a faixa de rodagem, geralmente a ritmo de desfile de moda, só falta darem a voltinha habitual nesses eventos, acho que não o fazem talvez por vergonha, ou talvez por não nos darem importância.

Quando vem em grupo, os da frente aceleram, os de trás vem “nas calmas”, quando os da frente estão a chegar ao fim da passadeira revolvem voltar atrás para apressar os mais lentos. Aí, geralmente param todos, riem, olham para os carros e retomam a sua marcha ao ritmo dos mais lentos, claro!

Mas hoje foi perfeito, ao chegar perto da passadeira vejo 3 estudantes, que ao aproximarem-se da berma, e antes de atravessar, páram, estabelecem contacto visual com o condutor do veículo que se aproxima, eu, para se aperceberem que estava consciente da intenção deles.

Eu estava atento, fiz o mesmo, estabeleci contacto visual com quem estava junto da passadeira, e anuindo com a cabeça como que informei-os que estava em condições de parar, como sou obrigado, para poderem passar em segurança.

Desta vez os jovens passam em passo normal e sem fazerem encenações, até fiquei satisfeito, os peões atravessaram a via e não perdemos muito tempo, assim o fluxo de transito pode continuar sem que ninguém fique desnecessariamente à espera de terceiros.

Este dia está mesmo a correr bem, reinicio a marcha e por incrível que pareça nas duas passadeiras seguintes por que passo acontece o mesmo, os peões são cuidadosos, não fazem o que normalmente fazem.

Por exemplo, desta vez não fizeram a ameaça aos condutores que é habitual, de irem a caminhar junto á berma do passeio e ao chegarem à passadeira, virarem para esta sem abrandar, sem verem se está algum veículo já a cruzar a passadeira.

Quando isso acontece, param repentinamente e muitas vezes começam a injuriar os condutores, pois estão na passadeira e tem prioridade de passagem, realmente até tem, o condutor, provavelmente, é que não tinha atualizada a assinatura desse mês da futurologia… enfim.

Mas hoje é um dia perfeito, nada disso aconteceu. Hoje todos os peões estão tão atentos aos seus deveres como, nos outros dias, geralmente estão atentos para reivindicar, insistir e relembrar os seus direitos.

Nos semáforos

Aproximo-me de um semáforo, que muda para amarelo, conscientemente abrando e páro em segurança. Calmamente aguardo a mudança de cor para permitir prosseguir, e quando o sinal do peão, que está verde, começa a piscar, as pessoas que se encontram a 50 metros da passadeira não começam a correr para esta.

Prosseguem ao mesmo ritmo, os peões que estavam na berma, para espanto meu, param e quando os últimos peões que tinham iniciado a travessia terminam a sua travessia o sinal para estes está vermelho.

Momento depois o meu sinal muda para verde e posso arrancar de imediato pois, desta vez não existem atletas olímpicos a chegar à passadeira e a cruzar a meta no momento que põe o pé na passadeira, reduzindo o ritmo da passada ou até parando para recuperar folego da correria para chegar à passadeira.

Maravilha, retomo o meu percurso e depois de passar por mais 5 passadeiras com todos os peões a terem sempre o mesmo comportamento exemplar, penso para mim “Todos devem ter tido a mesma sensação que eu hoje, hoje vai correr tudo bem .”

Até já me esquecia, com tanta suavidade e empatia por parte de todos, passei por diversos cruzamentos e entroncamentos e ninguém forçou a passagem, ninguém buzinou, nem os taxistas, tudo se passou como deveria passar em todos os outros dias, não só nos dias perfeitos.

Quando me aproximo do local onde costumo estacionar, vejo que, desta vez, todos os outros veículos estão parados ordenadamente, dentro das linhas, até os veículos maiores não estão a extravasar um só espaço, impedindo que sejam estacionados o número de veículos previsto.

Neste dia perfeito, quando vou a estacionar eis que… toca o alarme para eu acordar! Bem vindo à realidade. Será que vou ter o dia perfeito com que sonhei? Adivinhem!

Foto | Easy Traveler