O que aconteceria se hoje tivéssemos de começar a circular pela esquerda?

Circular pela esquerda

Pensando sobre o dia em que se mudou o sentido de circulação na Suécia, fiquei com vontade de investigar sobre este assunto, o da circulação pela esquerda e pela direita. Até agora, sabia apenas o que se comenta: que os ingleses é que circulam bem, que os restantes utilizamos a direita por causa do Napoleão e que o Reino e Sua Majestade Graciosa não pensam em mudar de lado.

Vale então a pena aprofundar um pouco mais… o que acontece quando de repente se muda essa norma básica de circulação? Podia dar-se o caso de um país onde se circula pela direita decidir que é mais prático passar a circular pela esquerda? Como é que isso se decide? E como é que se coloca em prática? É mais perigoso manter a norma ou mudá-la? Não sei… são coisas que me ocorrem. Vamos ver se puxando o fio à meada se vão encontrando algumas respostas.


Circular pela esquerda

Porquê circular pela esquerda?

Resumiremos este assunto para quem ainda não ouviu falar disso. Diz-se que já no Império Romano tinham o costume de circular pelo lado esquerdo para poderem saudar (ou agredir) os da mão direita. Esta ideia é reforçada quando se sabe que na Idade Média os duelos eram organizados de modo a que o cavaleiro atacante se movimentasse pela esquerda. Contudo, há alguns testemunhos de duelos onde os cavaleiros cavalgavam pelo lado direito. Não é preciso ir mais longe, vejamos o exemplo em cima extraído de um capitel da Igreja de Santa Maria la Real de Nieva, em Segovia, Espanha.

Seja como for, também nos contaram que os condutores de carruagens usavam o chicote com a mãe direita para espicaçar os seus cavalos, enquanto seguravam as rédeas com a mão esquerda, e por isso circulavam pela esquerda para evitar magoar os transeuntes. Quando muito, se dessem uma chicotada mal calculada quem sofria era a terra do caminho e não algum viajante. Tudo isto são histórias que encontramos repetidas aqui e ali.

Tomada da Bastilha

Tomada da Bastilha, 14 de Julho de 1789

Quando é que isto muda? Quando muita coisa mudou: a partir de 1789. Nessa altura, a nobreza absolutista tinha o costume de descer da carruagem pelo lado esquerdo, que ficava mais próximo dos edifícios, e impunha às pessoas do povo que descessem pelo lado direito, para marcar diferenças entre uns e outros. Quando começaram a rolar cabeças, alguns começaram a descer pelo lado direito para passarem despercebidos. Já em 1794, ao promulgarem-se as leis da Revolução Francesa, se introduziu uma norma que obrigava à circulação pela direita.

Esta norma propagou-se pela Europa à medida que as ideias revolucionárias se foram espalhando. Sim, diz –se muitas vezes que Napoleão impulsionou a norma porque ele era surdo, mas sinceramente… E onde a norma não foi imposta por Napoleão, foi imposta por Hitler na década de 1930, por exemplo na Áustria e no que então se conhecia por Checoslováquia.

Batalha de Waterloo, 1815

Batalha de Waterloo, 1815

A verdade é que o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, assim chamado a partir de 1801, ficou à margem desta lei inventada no continente e exportada pelo feroz inimigo, vencido em Waterloo no primeiro caso e em Estalinegrado no segundo, e continuou a circular à maneira antiga, como parecia ser mais prático e muito mais ao seu estilo.

Estávamos nos ano de 1928 quando, no dia 1 de junho, em Portugal e suas colónias, com exceção de Goa, Macau e Moçambique, o trânsito de veículos na via publica passou a fazer-se pela direita, ao invés do que se fazia até então… pela esquerda. No entanto e por razões de segurança, algo curioso acontece em Lisboa; na Rua Viriato a circulação ainda se faz pela esquerda, como no país de sua majestade a Rainha isabel II, assim como na Calçada de Carriche com os corredores dos transportes públicos a estarem situados à esquerda do trânsito geral.

Países com circulação pela esquerda

Vamos agora explorar um pouco de geografia. Em 34% dos países do mundo, circula-se atualmente pela esquerda. Na Europa, são quatro: Chipre, Irlanda, Malta e Reino Unido, e fora do nosso continente há de tudo, geralmente predominam países que foram colónias britânicas e agora fazem parte da Commonwealth, embora haja exceções. Além daqueles quatro estados do nosso continente, a lista de países onde se circula pela esquerda compreende os seguintes:

Antiga e Barbuda, Austrália, Baamas, Bangladesh, Barbados, Botsuana, Brunei, Butão, Dominica, Fiji, Granada, Guiana , Hong Kong, Índia, Indonésia, Ilhas Salomão, Jamaica, Japão, Macau, Malásia, Malawi, Maldivas, Maurícias, Moçambique, Namíbia, Nauru, Nepal, Nova Zelândia, Quénia, Quiribati, Paquistão, Papua Nova Guiné, Samoa, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia, Singapura, Sri Lanka, Suazilândia, África do Sul, Suriname, Tailândia, Timor-Leste, Tonga, Trindade e Tobago, Uganda, Zâmbia e Zimbabué.

Durante o século XX, foram vários os países que inicialmente aderiram à circulação pela esquerda para depois passarem a circular pela direita. Porém, houve outros que fizeram o caminho inverso: circulava-se pela direita e agora circula-se pela esquerda. É o caso da Namíbia. Além disso, há ainda países, como acontece em Espanha, que têm fortes contrastes culturais, como é o caso do Canadá e da China, que tiveram uma divisão normativa, até que se impôs a circulação pela direita.

Mapa que mostra as mudanças de sentido de circulação a partir de 1958,
coincidindo com a mudança normativa na Finlândia.
Mapa Histórico de Sentidos de la Circulação

     Circulan pela direita.
     Circulam pela esquerda.
     Circularam pela esquerda, agora fazem-no pela direita.
     Circularam pela direita, agora fazem-no pela esquerda.
     Tiveram várias normas de circulação coexistindo dentro do mesmo país e agora circulam pela direita.

Fonte: Wikipedia

“Högertrafikomläggningen”, num dia tudo muda

E chegamos ao exemplo da Suécia, que mudou o sentido de circulação em 1967. Ou seja, anteontem. Högertrafikomläggningen significa “reconfiguração da circulação pela direita”, mais ou menos, e é o termo com que se conhece a mudança que teve lugar na Suécia no domingo 3 de Setembro de 1967, às 4:50 da madrugada.

É óbvio que se escolheu um domingo por haver uma menor carga de tráfico. E a madrugada pela mesma razão. Mas porquê às 4:50 e não às 5:00, por exemplo? Certamente porque a essa hora se parou todo o tráfico durante 10 minutos para dar tempo aos condutores de mudarem de lado. E a partir das 5:00 toda a gente começou a circular pela direita.

Sinalização e imagem do "Högertrafikomläggningen"

Que bonito, não é?

A verdade é que há uma fotografia que ficou para a posteridade, como reflexo do momentâneo caos que se gerou em Kungsgatan, uma das principais ruas do centro de Estocolmo. Nela, observam-se dezenas de veículos cruzados na rua e centenas de mirones a circular lá pelo meio, numa anarquia tal que chega a ser chocante.

Högertrafikomläggningen

Mas porque é que fizeram isso? Lembraram-se assim de repente, da noite para o dia, de mudar tudo? Retrocedamos um pouco mais no tempo para ver como se processou a mudança de circulação para o lado direito na Suécia.

Porque é que firezam o Högertrafikomläggningen?

O governo sueco já queria mudar a legislação há várias décadas. Nos tempos de Napoleão, o francês nunca chegou a conquistar aquelas terras, pelo que ninguém passou a circular pela direita. Apesar disso, os vizinhos noruegueses já o faziam, bem como os dinamarqueses. E na Finlândia, tal como já vimos, começaram a circular pela direita em meados do século XIX. De qualquer forma, o problema principal localizava-se na vasta zona fronteiriça com a Noruega.

Por outro lado, desde meados do século XX, a maior parte dos carros que circulavam na Suécia vinham equipados com volante do lado esquerdo, como no resto da Europa. A falta de visibilidade do ponto de condução, que ficava ao lado da berma e lhes conferia melhor visibilidade para controlar os animais que lhes podiam aparecer à frente (alces, por exemplo), estava na origem de um grande número de choques frontais em ultrapassagens em estradas de uma só via, as mais frequentes nessa altura na Suécia.

O que fazer então? O governo sueco submeteu a questão às urnas. A 16 de Outubro de 1955, a mudança de sentido de circulação foi alvo de um referendo não vinculante. E 82,9% dos votantes disseram não à proposta de mudar e começar a circular pela direita. Os condutores estavam muito reativos à mudança. Num cenário como aquele em que viviam, com uma sinistralidade rodoviária tão elevada, talvez temessem que com a mudança aumentasse ainda mais a mortalidade nas estradas, tendo em conta que se se separassem da berma teriam pior visibilidade para controlar os animais que saltavam para a estrada.

Petição de votos contra a circulação pela direita

Apesar disso, o Riksdag, o parlamento sueco, não teve em consideração o voto popular e instaurou a mudança de sentido de circulação. A perspetiva de uma sinistralidade rodoviária originada por se manterem isolados num contexto em que os países vizinhos tinham mudado as suas normas era mais forte do que a opinião dos cidadãos quando foram ouvidos. E procedeu-se à mudança.

A partir do Riksdag, nomeou-se uma comissão especial para gerir a mudança (a Statens Högertrafikkomission) e, seguindo os conselhos dos psicólogos, implantou-se um programa educativo que durou quatro anos. Também se criou um logotipo específico chamado dia D (Dagen H, em sueco, em que o H é de Höger, direita), estampado em 130.000 sinais de trânsito e em milhares de artigos, desde pacotes de leite até embrulhos de roupa interior. A ideia era que a mudança não passasse despercebida.

Dagen H no Högertrafikomläggningen. Essingeleden, 1967

Dessa forma, mudou-se toda a sinalização nos cruzamentos. Duplicaram-se os sinais e cobriram-se aqueles que só entrariam em funcionamento no dia D. Durante o Högertrafikomläggningen, os operários da manutenção mudaram um total de 360.000 sinais.

Além disso, para facilitar a gestão, restringiu-se o tráfico que não fosse imprescindível entre a 1:00 e as 6:00 e entre as 4:50 e as 5:00 procedeu-se à mudança das vias. Em Estocolmo e Mälmo, contudo, a proibição de circular estendeu-se desde as 22:00 de sábado até às 15:00 de domingo, para permitir o trabalho em todas as vias. A imagem que vemos em cima foi tirada em pleno dia na Essingeleden, a autoestrada que liga Estocolmo e Solna.

Dagen H

Consequências de mudar o lado de circulação

A 3 de Setembro de 1967, mudou-se o sentido de circulação dos veículos na Suécia. Deixaram de o fazer pela esquerda e passaram a fazê-lo pela direita. Esta mudança significou um aumento de sinistralidade, como talvez temessem os condutores, ou aconteceu o contrário? Uma análise dos dados sobre a mortalidade rodoviária naquele ano e no ano anterior revela que a mudança não foi prejudicial:

Ano 1966 1967
Mortes no mês de Setembro 99 59
Mortes durante todo o ano 1.313 1.077

O facto é que na segunda-feira, 4 de Setembro, se registaram um total de 125 sinistros de todo o tipo, número a baixo dos 130 a 198 que tinham acontecido nas segundas-feiras anteriores à mudança. Quem estudou o caso sueco, pôde perceber que neste processo foi crucial a atitude dos condutores que tiveram de prestar muito mais atenção à condução. Na verdade, o facto de conduzirem carros com o volante do lado apropriado foi também determinante para se conseguir uma rápida redução da mortalidade rodoviária na Suécia.

A Suécia foi o penúltimo país na Europa a proceder à mudança de sentido de circulação. Um ano mais tarde, a Islândia adotou a mesma medida. Logicamente, hoje em dia ninguém planeia voltar a circular pela esquerda nos países à nossa volta, mas a questão suscita uma grande polémica em países como o Reino Unido, onde nem querem ouvir falar em abandonar a sua tradição ancestral. Contudo, o exemplo sueco mostra-nos que uma mudança tão importante como esta não tem que ser negativa. Imaginam que um dia nos levantamos e teremos que voltar a circular pela esquerda?

Foto | Zaphod