30 km/h como velocidade máxima dentro das localidades é uma boa medida?

É no início do ano que se tomam medidas ou, pelo menos, pensa-se em novas medidas. No início de janeiro de 2018, o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, revelou a intenção de passar a velocidade máxima dentro das localidades de 50 para 30 km/h.

Esta medida passa por ser uma reação aos números de atropelamentos que são absolutamnte inaceitáveis, nas palavras do ministro. Trata-se de uma medida que vai levantar um coro de reações, sejam elas negativas ou positivas, mas será que esta medida de velocidade é suficiente para conseguir reduzir as fatalidades em ambiente urbano? Há várias cidades europeias que já utilizam os 30 km/h de velocidade máxima como referência, sendo que Lisboa tem, inclusivamente, alguns bairros que adotam esta velocidade, ainda que seja uma medida urbana imposta apenas pela edilidade lisboeta.
O limite de velocidade de 30 km/h em zonas urbanas faz com que as cidades sejam mais tranquilas, mais limpas e sobretudo mais seguras para peões, ciclistas e condutores. Num atropelamento provocado por um veículo que circule a 30 km/h, o peão tem 90% de possibilidades de sobreviver, de acordo com alguns estudos da OMS (Organização Mundial de Saúde). Mas há mais benefícios. Venha com o Circula Seguro conhecê-los.

1 – Salva-vidas
Nada menos que dois terços dos acidentes rodoviários mortais na Europa, cerca de 20 mil acontecem em zonas urbanas e 48% das vítimas são peõs e ciclistas, de acordo com a base de dados de acidentes de trânsito da Comissão Europeia. Reduzir a velocidade média em 5% baixaria os números de acidentes com feridos em 10% e os mortais em 20%. Logo, ao diminuir a velocidade de 50 para 30 km/h em zonas urbanas, a distância de travagem baixava de 36 para 15 metros, de acordo com a OMS.
A uma velocidade superior a 30 km/h, aumentam as probabilidades de sofrer lesões graves ou mortais, enquanto que a 30 km/h, o risco do peão ser atropelado reduz-se em 10%. Todos as pessoas que fossem atropeladas por veículos a circularem a 30 km/h, seriam feridas com muito menor gravidade ou até nenhuma gravidade, porque a uma velocidade mais reduzida a capacidade de reação é maior. Neste sentido, a aposta passa por modificar o modelo de cidade, logo reduzir a quantidade de veículos e diminuir a velocidade dos mesmos.

2 – Reduz a contaminação
Cerca de 98,6% da população respira ar que supera o indice de contaminação recomendado pela OMS. Tendo em conta que o limite marcado pela legislação europeia e espanhola, mais permissiva que a da OMS, a percentagem seria reduzida a 39%, ainda que este valor seja referente a 18,5 milhões de pessoas, o que supõe 3 milhões de afetados. O aumento da contaminação deveu-se a uma aumento de veículos na estrada e também às fraudes nos sistemas de certificação das emissões, despoletados pelo escândalo da Volkswagen.
O trânsito automóvel é aina o principal causador da contaminação acustica nas cidades. Dois de cada três residentes nas cidades vivem em ambientes sonoros inaceitáveis. Com a aplicação dos 30 km/h, estima-se uma redução do ruído em 3 decibéis.

3 – Melhora o tráfego e a qualidade de vida
Conduzir a 30 km/h na cidade garante um fluxo de trânsito constante com menos engarrafamentos e congestionamentos. Também faz com que as deslocações ativas, ou seja, aquelas que se realizam a pé ou em bicicleta, sejam muito atrativos, melhorando a competitividade do transporte público. Por exemplo, em hora de ponta um autocarro vê a sua velocidade reduzida em 15 km/h, pois precisa de “competir” pelo seu terreno no meio do trânsito.
A velocidade média em cidade ronda os 18-22 km/h, enquanto que a uma velocidade máxima de 30 km/h, passaria a situar-se entre os 16 e os 20 km/h, propiciando uma circulação mais uniforme, permitindo que se atingisse a velocidade máxima durante mais tempo.

4 – Fomenta a mobilidade sustentada e beneficia a economia
Uma redução na utilização atual do automóvel vai fomentar a mobilidade sustentável. Esta diminuição também levaria a um gasto de combustível inferior e, com isso, a uma menor dependência energética do exterior.

5 – Traz turismo
O trânsito regrado e mais sereno fomenta o turismo, o consumo, repercutindo-se nas visitas à cidade. Não gostaria de andar numa cidade em que os veículos circulem a baixa velocidade e na qual se sinta seguro movendo como peão ou ciclista?

Já existem alguns casos de sucesso

Já há algumas cidades onde se aplica a lei dos 30 km/h, como Pontevedra, em Espanha. Ainda assim, o historial desta velocidade média nasceu na cidade alemã de Buxtehude, que estabeleceu em 1983 a primeira zona de 30 km/h.
Em Pontevedra, a velocidade máxima de 30 km/h regista-se em toda a cidade e tem funcionado, já que a sinistralidade urbana foi reduzida ao minímo. Na última década ninguém morreu em atropelamentos ou em acidentes de trânsito. Pontevedra não se compara a Lisboa em dimensão, mas fica a nota e as vantagens que esta velocidade poderá trazer ao trânsito. A ideia é abolir alguns carros da cidade, o que com uma melhoria dos transportes públicos e com algum desespero de andar a 30 km/h, poderia funcionar de forma positiva.

Fonte: MAI, IMT, Circula Seguro