Como se portam os portugueses na estrada: o olhar de um diplomata

sinistralidade

Fernando d’Oliveira Neves é uma referência na diplomacia portuguesa. Atormentado pela tragédia da sinistralidade rodoviária e quando os indicadores estatísticos indicam uma subida, este antigo embaixador português, com experiência de vida em diferentes países do mundo, disserta sobre o comportamento na estrada em Portugal.

O crescimento da sinistralidade rodoviária que se está a verificar, após uma série de anos continuamente a decrescer, levou o tema novamente para o topo das manchetes dos órgãos de comunicação. Estão os portugueses a portar-se pior na estrada? O antigo embaixador português Fernando d´Oliveira Neves escreveu, no final de abril, um interessante artigo de opinião no jornal Público em que dá a saber a sua visão sobre a sinistralidade rodoviária portuguesa. E atendendo à experiência de vida de Fernando d´Oliveira Neves, que foi embaixador em sítios com realidades culturais, sociais, políticas e económicas tão díspares quanto Luanda, Dublin, Haia ou Roma, é, seguramente, alguém, cujo ponto de vista tem relevância escutar.

Oliveira Neves elogia aquilo que diz ser a “inegável história de êxito nacional” que foi a redução do número de mortos na estrada nas últimas décadas, de sete para menos de dois por dia. “Mas mais de 500 são muitos e o aumento em relação ao ano anterior aterrador desastroso. Desastroso porque o objectivo deve ser zero mortos. E porque as mortes na estrada são mais susceptíveis de ser evitadas do que as das catástrofes naturais, que justificadamente tanta comoção e revolta provocam e tanta solidariedade mobilizam”, refere o antigo diplomata.

“O choque com o aumento da mortalidade rodoviária veio, felizmente, focar a atenção sobre esta tragédia rotinada e terá alertado para ela a atenção construtiva das entidades públicas e privadas do sector. Levou até que se adiantassem algumas possíveis medidas para a combater”, aponta Fernando d´Oliveira Neves.

Para este diplomata, que trabalhou no Departamento encarregue da adesão de Portugal às então Comunidades Europeias, uma das medidas implementadas que suscitou mais atenção foi de impor a velocidade limite de 30 km/hora nas zonas urbanas onde ocorrem mais acidentes fatais. “A ideia poderia ser boa, se as leis da condução fossem respeitadas. Mas será totalmente inútil, como é manifesto para qualquer pessoa que conduza em Lisboa — e não creio que seja muito diferente na maioria das outras cidades com trânsito intenso”, refere Oliveira Neves.

Na perspetiva desta figura proeminente da diplomacia nacional que esteve na Missão Permanente junto da Organização das Nações Unidas e na Representação Permanente de Portugal junto das Comunidades Europeias, “os automobilistas violam, determinada, persistente, metódica, pertinaz, constante e sistematicamente todas as mais elementares regras do Código da Estrada. Ignoram os semáforos, não fazem sinal de mudança de direcção, desrespeitam os sinais horizontais, colocam-se na faixa da seta que indica direita quando querem virar para a esquerda, não respeitam a prioridade da direita, que a maioria parece aliás ignorar porque também não a observam quando vêm da direita, estacionam em segunda fila nas ruas onde é permitido estacionar e param indiferentemente naquelas onde é proibido, tornando as ruas numa gincana, circulam pelas faixas BUS, utilizam os máximos dentro da cidade, etc., etc..”.

Mas não apenas os condutores os visados na crítica de Oliveira Neves.

Atravessar com ar soberano

“As únicas regras que parecem ser respeitadas são a da prioridade nas rotundas e a das passadeiras dos peões. Mas esta última tornou-se um risco acrescido, porque os peões interpretam a prioridade de que disfrutam como um direito divino e atravessam sem olhar com um ar soberano, sem cuidar de garantir que o automobilista que se aproxima tem tempo de os ver e de parar, além de desrespeitarem constantemente os semáforos”.

Ainda que assuma não ser especialista em segurança rodoviária e de estar consciente que pode estar a cometer erros na análiue que faz, o diplomata Oliveira Neves diz estar “convicto de que, com determinação, é possível eliminar ou pelo menos reduzir ao mínimo possível as mortes na estrada”.

Oliveira Neves, agora reformado, pormenoriza: “Ao longo da minha carreira, dei alguma atenção ao modo como em cada país se combatia os acidentes na estrada. Pelo que observei — e também pelo que li na apreciação desses esforços —, estou convicto que a única arma eficaz para combater a sinistralidade rodoviária é o aumento da fiscalização e a decorrente percepção, por automobilistas e peões, de que, se violarem as normas do Código, serão apanhados e sofrerão as respectivas consequências. Quando essa percepção atinge determinados patamares, que creio estão estudados, as baixas caiem a pique, como sucedeu na Suécia ou no Reino Unido. Quando essa percepção baixa, a sinistralidade volta a subir. Sei que a fiscalização é cara. Mas muito menos do que as mortes que a sua redução pode provocar. Afigura-se-me que se poderia fazer um uso mais eficiente dos recursos existentes, designadamente as câmaras móveis, ou os radares, tantas vezes avariados, e naturalmente a presença policial”.

Oliveira Neves sugere como um precioso meio auxiliar de persuasão a possibilidade da fiscalização utilizar drones, inclusive na deteção da “nova e mais perigosa violação das regras de condução, a utilização de telemóveis para ler mensagens e ver imagens ou para digitar”, afirma.

Remata o antigo embaixador: “O aumento de sinistralidade e de fatalidades na estrada no ano passado parece ter despertado a atenção devida. Espero que, na sequência do que já foi adiantado, especialistas e responsáveis saibam encontrar as adequadas respostas para inverter imediatamente essa tendência e que a abolição da morte nas estradas passe a constituir uma prioridade nacional”.