As marcas mentem sobre o peso do seu carro?



Sempre que uma marca lança um novo modelo anuncia mais segurança, mais itens de infotainment e menos consumo. Mas estas alegações serão compatíveis entre si?

Uma panóplia de equipamentos aumenta a massa do veículo, elevando o seu peso. Mesmo com melhorias na eficiência dos motores, será que as marcas são verdadeiras quando anunciam o peso dos seus veículos? Vamos descobrir.

Qualquer construtor deseja vender veículos e hoje em dia a chave para a venda é anunciar consumos baixos, cada vez mais baixos. Os valores por vezes são praticamente inatingíveis numa utilização normal. Num artigo recente abordei a nova formula que trás mais realismo a este cálculo, leia-o aqui.

Para aumentar a segurança são necessários novos sistemas ou soluções criativas diversas do tradicional. Caso estejam a usar materiais considerados inovadores ou exóticos o preço desses materiais irá onerar em muito a viatura. Mas, logicamente, isso tornaria os preços proibitivos.

Sem novos materiais o incremento da segurança pode também ser derivado de novas técnicas de construção. Melhorando a forma como o carro absorve a energia dum impacto, porém o próprio material é uma limitação. Pode ser reforçado aumentando a quantidade de material para assim melhorar a resistência.

No caso do aumento da panóplia de “gadget’s” o problema é o mesmo, quanto mais sistemas e elementos, mais peso. Mesmo com a evolução tecnológica dos gadget’s a necessidade de alimentá-los exige baterias com mais amperagem e capacidade de arranque a frio. Mas esta necessidade provoca um aumento de peso.

Evolução ao longo dos anos

Os carros antigos, os chamados clássicos, tem um ar de pesadões, em especial os americanos dos anos 50 e 60. Os “carros de Detroit” de há meio século atrás, possuíam grandes para-choques cromados, motores enormes de ferro fundido. São grandes e com um aspeto pesado.

Mas as coisas nem sempre são como parecem. Os carros modernos são muito mais “densos” do que os seus antepassados. Façamos uma comparação rápida entre os modelos dos mesmos fabricantes com cerca de 50 anos de diferença. Vejamos os números.

Para começar comparemos o Chevrolet Chevelle 300, de 1967, com o atual Chevrolet Sonic. É certo que os carros são completamente diferentes, até de segmentos diferentes. O mais antigo tem um motor V6, deve ser impossível que o peso seja parecido. Realmente o Sonic é mais leve, mas só 18 quilos!!! São 1.340 quilos do Chevelle contra os 1.322 do Sonic.

Passando á Ford, vamos comparar o Fairlane 500, de 4 portas, com um motor V8, ao Focus SE, a versão de 3 volumes e 4 portas. O mais idoso pesa 1.339kgs e o mais novo acusa 1.347kgs. Aqui o mais novo está mais pesado 8 kgs.

A densidade e o aproveitamento do espaço são também fatores críticos na balança. As dimensões são completamente diferentes, o velhinho Fairlane mede 5,28 metros contra 4,54 do Focus. A largura também é significativamente diferente, são 1,97 metros contra 1,82. Mas depois a balança acusa o mais pequeno de ser mais pesado.

Será que as marcas mentem sobre o peso dos seus carros? Que vantagens podem tirar de indicar valores acima ou abaixo do real? Qual poderá ser o interesse em fazê-lo? Será que pode afetar o consumidor?

Mas as marcas mentem sobre o peso?

Para efeitos de homologação as marcas têm que indicar um valor como base, ao qual é adicionado um valor para o condutor e bagagem. Geralmente a massa determinada pelas entidades é de 75 kgs. (Epá, acho que estou com excesso de “bagagem”)

Por exemplo o BMW Z4 M Coupé tem definido como peso base 1.420kgs, somado ao valor indicado acima dará um total de 1.495kgs de massa total. Assumindo que as marcas possam indicar umas vezes um e outras vezes outro valor, passemos a exemplos concretos de disparidades.

A revista EVO efetuou uma verificação dos pesos anunciados pelas marcas para determinados modelos desportivos. As variações nalguns casos foram significativas, sempre para mais. Comecemos com os mais aproximados do anunciado pelas marcas. O Fors Focus RS apresenta um peso superior em 22kgs em relação ao anunciado.

A Honda, no Civic Type-R, divergiu 32 kgs. No caso do Seat Leon Cupra 300 foram mais 47 kgs, o Hyundai i30 N Performance obteve um resultado superior em mais 1 kg que o anterior, atingindo os 48 kgs de diferença. O BMW M4, equipado com o Competition Pack, superou o anunciado em 60kgs.

Daqui para cima todos os valores ultrapassam o peso determinado como sendo o peso médio de um passageiro. O Jaguar F-Type R Coupé AWD obteve um peso acima em 95 kgs, seguido de perto pelo Volkswagen Golf GTI Performance, com mais 96.

O desvio acentua-se com o Peugeot 308 GTI by PS, atingindo os 111 kgs. O Mercedes AMG C63S Coupé ainda apresenta um desvio superior, são 122 kgs. O recordista, no sentido negativo, é o Audi RS5 cuja diferença atinge os 144kgs. É algo estranho estas divergências.

Porquê estas diferenças?

Algumas marcas calculam o peso base como sendo o carro sem “extras”, como ar condicionado, tetos panorâmicos, sistemas de som, bancos com ajuste elétrico e aquecimentomesmo que não seja possível pedir o carro sem estes equipamentos!

Todos os cálculos efetuados com base na massa do veículo são afetados. As diferenças de peso iram alterar os cálculos de consumo, pois um carro mais pesado irá necessitar de mais combustível para se locomover. Mas não é só a economia que é afetada, as performances também o são. Todo o peso extra necessitará de mais potência e binário para o deslocar.

Uma marca indica que o seu modelo pesa um determinado valor e leva-o para os testes de homologação com o peso indicado. Mas depois, no dia a dia, o veículo na verdade é mais “obeso”. Concluindo, quem paga é quem suportar a fatura para o atestar, ou seja, o consumidor.

Da mesma forma um potencial comprador compara os dados de peso/potência de um veículo, isto é muito importante nos desportivos. Se fundamenta a sua escolha só por esses parâmetros, acaba sendo ludibriado. Afinal os valores podem não ser 100% exatos, mas uma diferença de 144kgs tem muito que se lhe diga.

No caso do Audi RS5 a relação peso/potência passa dum valor de 3,66 kgs por cavalo, para 4,00. Esta diferença poderia ser decisiva para a escolha final do consumidor. Confesso que nestes modelos desportivos a importância dada do consumo é geralmente relegada para segundo plano. Mas se mentem nestes o que farão nos outros? A resposta é fazem igual!

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