Crónica de viagem Lisboa/Porto/Lisboa em veículo elétrico


Após a chegada tímida dos veículos elétricos a oferta tem vindo a crescer de forma significativa. Somado à mudança de atitude do consumidor, depois da resistência inicial, a aceitação e vendas tem aumentado de forma expressiva.

Impõe-se um “teste” à mobilidade e à autonomia que estes veículos oferecem. Para isso recorri à experiência que um familiar efetuou. Alugou um destes veículos e fez-se à estrada. A crónica relata as espectativas e a realidade encontrada. Desfrute da crónica em discurso direto de Luís Pereira.

Partida com destino ao Porto

Fui ao Porto no fim de semana e levei um BMW i3 para experimentar a mobilidade elétrica.
Adorei a experiência, apesar do carro ter um extensor de autonomia que dá para fazer uns 100 quilómetros a gasolina, não quis usar essa “batota”.

Quando levantei o carro tinha uns 150 quilómetros de autonomia que foram suficientes para chegar a Leiria, aproximadamente 120 quilómetros. Parei para carregar e aproveitei para descansar um pouco… Fiquei parado uns 55 minutos entre descobrir como se fazia e realmente carregar.

Não carreguei até aos 100 por cento. Mas os 190 quilómetros de autonomia foram suficientes para chegar ao Porto e ainda dar umas voltas por lá. Durante a noite deixei-o a carregar numa tomada doméstica.

O regresso a Lisboa

Após a carga noturna a autonomia prevista era de 200 e poucos quilómetros. Parti de regresso a Lisboa. Encetei a viagem de regresso mais confiante e decidi não ser tão poupado no regresso. Mesmo assim queira testar que conseguia regressar só com uma paragem para recarregar.

A mudança de atitude na forma de usar o pedal do acelerador teve um efeito mais gastador que o previsto. Resultado, os 200 e poucos quilómetros de autonomia iniciais, foram suficientes para fazer aproximadamente 140 quilómetros reais. Talvez conseguisse fazer mais uns 15 a 20 quilómetros.

Percebi logo, por volta dos 40 quilómetros de viagem, que estava a exagerar. Por isso voltei a um modo de condução mais conservador para que a paragem programada aos 140 quilómetros fosse possível, o que consegui.

Parei e desta vez, já fui mais rápido no procedimento de carga. Fiquei parado 45 minutos para carregar até aos 99 por cento, o que me daria mais uns 200 quilómetros de autonomia. Como estavam faltando 160 quilómetros reais até ao final, parecia tudo bem encaminhado. Calculei que devia chegar a Lisboa com aproximadamente 20 quilómetros de autonomia.

Redução inesperada da autonomia

No entanto, quando faltavam uns 100 quilómetros reais, subitamente “desapareceram” uns 30 quilómetros de autonomia. Depois de umas contas de “sumir”, comecei a ficar com algumas dúvidas se ia conseguir.

As dúvidas adensaram-se principalmente no momento em que passei pela tabuleta onde dizia que faltavam 90 quilómetros para o destino… e a autonomia era de 89 quilómetros!

Então apercebi-me que estava a subir suavemente há já algum tempo, daí o “desaparecimento” dos tais 30 quilómetros. Como tudo o que sobe tem que descer, imaginei que ia recuperar alguma autonomia na descida.

Esta revelou-se mais abrupta do que a subida, por isso, fiz por aproveitar ao máximo a regeneração enquanto podia. Consegui recuperar os 30 quilómetros que desapareceram e por momentos ainda mais uns 10 quilómetros.

Desabafei “Uffaaa! Menos mal. Não me apetecia nada fazer uma paragem não programada.” A partir desse momento descontraí. O cálculo da autonomia por contraste com a distância real, tornou-se mais equivalente e fácil de se fazer.

Suponho que a mais correta indicação da autonomia ocorre pelo facto do percurso a partir daí ser mais plano. Como calculei inicialmente, cheguei a Lisboa com uns 20 quilómetros de autonomia ainda no “tanque”.

A infraestrutura de recarga existente

De salientar o facto dos postos de combustível terem pontos de recarga rápida de 40 em 40 quilómetros na A1. Esse é um fato muito bom. No entanto, não é garantido que as pessoas que lá trabalham saibam como operar os mesmos. Isto porque segundo eles, os carros não lhes pertencem e os condutores é que devem saber como se faz…

O facto de só haver 2 postos de recarga por estação de serviço não foi problema, porque era sempre o único a carregar, mas se formos obrigados a esperar que alguém carregue para o fazermos, é capaz de ser muito chato.

Análise à experiência

Acabou por ser uma experiência gira, ir ao Porto e voltar sem gastar combustíveis fósseis. Andei sempre entre os 110 e os 120 km/h na autoestrada e nas vias rápidas cumpri sempre os limites de velocidade. O carro conduzia-se bem, pareceu-me no entanto que sofria um pouco com os ventos laterais a velocidades mais altas.

Não tive muita necessidade de aceder aos bancos traseiros. Mas, acho que no dia-a-dia ter que abrir as portas da frente para poder abrir as traseiras é capaz de ser incómodo… Mas o efeito das portas abertas “ao contrário” é bastante giro.

Claramente este é um carro feito para cidade e não para a autoestrada. Este fato revela-se também em termos de consumo e comportamento em velocidades mais elevadas. Os elétricos, no geral, não são usados neste tipo de viagem. Tanto assim é que não vi outro carro elétrico na autoestrada.

Percebi facilmente que, com estes carros, temos que alterar a nossa forma de condução. Por exemplo, o facto de praticamente nunca travar. Só o levantar do pé do acelerador reduz dramaticamente a velocidade e regenera a carga das baterias.

Toda esta experiência serviu para me tornar mais “suave” na condução. No entanto, sem me preocupar tanto com a autonomia no dia-a-dia da cidade, vejo-me a voltar aos “velhos hábitos”. Mas a experiência ensinou-me a gerir melhor o consumo. Fiquei rendido aos elétricos, sem dúvida uma excelente alternativa.

O futuro será elétrico?

Terminada a crónica impõe-se uma pergunta, o futuro será elétrico? Provavelmente, mas no mínimo será híbrido. As marcas prometem cada vez mais autonomia a cada novo lançamento ou atualização dos modelos elétricos e híbridos.

Entre as hipóteses de compra existem familiares, citadinos e desportivos. A variedade de modelos garante que as necessidades de todos são atendidas, incentivando a aquisição. Entre modelos elétricos e híbridos a oferta é tanta que os consumidores só podem seguir essa direção.

A grande proliferação dos “eletrificados” também é devido à legislação europeia que limita as emissões de gases poluentes e consumo. Com restrições cada vez maiores os construtores só podem seguir este caminho. Bem-vindo ao futuro.

Fotos | Luís Pereira