Encaminhados para a distração

Encaminhados para a distração: Este é o ecrã de 49 polegadas no Byton M-Byte que substitui o painel tradicional

Se não tem um carro novo há algum tempo, ou não esteve num veículo recente à pouco tempo, talvez não tenha reconhecido a imagem acima. Não é um simulador de condução, nem uma consola de jogos, nem a nova televisão da moda. Este é o interior, mas principalmente,  é o painel de instrumentos dum veículo cuja produção está prevista iniciar-se este verão.

A industria automóvel aposta forte na revolução tecnológica. Eles são veículos elétricos, híbridos, ou até autónomos… ou quase! Cada vez com mais informação disponível e para mostrar nos ecrãs cada vez maiores. Será que estamos a ser encaminhados para a distração?

A evolução tem sido constante

Durante os primeiros 100 anos, os carros eram essencialmente uma plataforma mecânica. Possuíam um motor de combustão interna e uma transmissão manual ou automática. Eram controlados por uma direção mecânica, assistida ou não, com acelerador por cabo e travões acionados por um pedal. Instrumentação para monitorar o carro era composta de mostradores analógicos composta por velocímetro, tacômetro e indicação de combustível, “água” e bateria.

Depois começaram a surgir desenvolvimentos, com mais informações para o condutor. Hoje todos os sistemas foram atualizados para versões com eletrónica “a potes”. Por exemplo sabemos a temperatura de óleo, temos computador de bordo com médias de consumo, autonomia prevista e próxima revisão.

No inicio do século XXI surgiram também painéis com versões rudimentares de GPS. Como se constata a evolução no mundo automóvel tem sido uma constante e a dos painéis de instrumentos dos carros tem sido mais rápida nos últimos tempos. A atual tendência é a eliminação dos mostradores analógicos e nos botões físicos. Estes estão sendo substituídos por écras, são talvez a evolução mais visível a bordo dum veículo.

Encaminhados para a distração

Agora existe um ecrã gigante, centrado sobre a antiga zona do painel e por vezes cobrindo a consola central. Esse componente substitui quase todos os botões e interruptores que anteriormente existiam nessa área. Mas por trás desse “simples” ecrã está um nível crescente de automação que esconde “uma tonelada” de tecnologia.

Às vezes tudo que precisa está disponível com um simples olhar. Outras vezes é necessário “folhear” os menus e ir pressionando o ecrã, sim porque são quase todos “touch”. O pior é que a nossa atenção deveria estar na estrada e não na consola, ou no painel do carro.

Se estiver conduzindo a 70 km / h a tentar chegar à página 3, opção 5, campo 2, provavelmente já foi de encontro à parede! A probabilidade de se distrair é maior quão mais recente for o veículo e menos habituado estiver com o sistema.

No volante do Ferrari SF90 Stradale muitos dos comando são “touch”, o que implica olhar antes de tocar!

Atualmente acontece outro fato de distração, algumas marcas fazem atualizações remotamente nos softwares dos carros. Ou seja, o condutor após já estar familiarizado com a forma como é apresentada a informação, é “presenteado” com uma alteração dos conteúdos. Nesse momento tem de voltar a reaprender onde se situam alguns dos comandos.

Evolução e regulamentações

A nível regulamentar, e como em qualquer revolução tecnológica, a tecnologia “anda” à frente das instituições. Estas não conseguem regular 100% das funções existentes a bordo dum veículo. Estas entidades focam-se, planeiam e projetam medidas para regular a segurança e os padrões gerais para que todos os veículos sigam os mesmos ditames.

Com o evoluir da tecnologia e a padronização dos comandos, os engenheiros e as entidades reguladoras acabarão por acertar o passo. Mas enquanto isso estamos, talvez, na parte mais íngreme de uma curva de aprendizagem. É como se fosse um “beta test” para todos, sobre qual é a interface certa para os veículos. Correndo o risco de nunca ser padronizada na totalidade.

A necessidade de desviar o olhar será o maior entrave à segurança, pelo menos enquanto continuar a ser o Homem a conduzir os veículos. Se a indústria pretende que se acelere a mudança para os veículos autónomos basta “distrair os humanos”. Assim podem “manobrar” a opinião pública contra o ser humano passando a tarefa de conduzir para os veículos autónomos. Para tal basta que os condutores sejam encaminhados para a distração.

Fotos | Byton, Ferrari