Obstáculos que os carros autónomos não conseguem evitar

Research project Highly automated driving on highways - Dr. Nico Kämpchen on a test drive (08/2011)

Quando um Tesla Model S se viu envolvido no primeiro acidente fatal com o “Piloto Automático” ativado, o modo de condução autónoma da marca americana, a Tesla afirmou na altura que o sistema de piloto automático não distinguiu “o lado branco do reboque de trator contra um céu brilhantemente iluminado, de modo que os travões não foram acionados”.

Segundo os últimos dados, o acidente fatal ainda está a ser investigado pelo governo dos Estados Unidos da América, mas esta frase acaba por não ser um bom presságio para a condução autónoma. Analisemos então os obstáculos que os carros autónomos não conseguem evitar.

Este infeliz acidente mostra que, apesar do avanço enorme que esta tecnologia conseguiu, ainda existem algumas situações que os humanos conseguem interpretar melhor que as máquinas. Isto não quer dizer que os humanos sejam perfeitos, pois mais de 37.000 pessoas morrem só nos Estados Unidos da América a cada ano por causa de acidentes de automóvel.

Outro acidente fatal ocorreu na China, neste caso foi disponibilizado, pela CCTV News, um filme do interior do veículo envolvido, onde se pode verificar que não existiu nenhuma tentativa de se desviar do obstáculo, um camião, parado na esquerda da via.

Muitas empresas que trabalham no desenvolvimento de carros autónomos têm referido que, apesar das fatalidades já registadas, ter veículos autónomos na estrada poderia reduzir drasticamente o número de vítimas, mas para que isso aconteça os carros autónomos ainda precisam de melhorar em algumas áreas-chave.

Melhorias necessárias

Raffi Krikorian, diretor de engenharia da Uber, disse recentemente à Bloomberg que os seus carros autónomos tinham dificuldades quando circulavam sobre pontes, apesar da Uber ter meticulosamente mapeado estradas para que o carro sem condutor possa comparar o que está a ver com o que é suposto estar lá, “simplesmente” evitando veículos, transeuntes e objetos.

Segundo a Uber, as pontes não têm muitos sinais identificativos como, por exemplo, edifícios próximos, é difícil para o software reconhecer onde está, o GPS indica a posição do carro em si, mas não para a precisão necessária.

A condução autónoma apresenta dificuldades em lidar com situações de mau tempo, os casos de neve, ou de chuva intensa tendem a confundir os sensores e também câmaras, segundo relata John Dolan, cientista do Instituto de Robótica da Carnegie Mellon, em entrevista ao Business Insider.

Outras formas de “ver” as estradas

Esta menção refere-se ao radar de deteção de luz que usa lasers para mapear os arredores do carro de forma a que ele possa “ver” o que o rodeia. Quando há neve no chão, os carros mesmo com o apoio de camaras têm dificuldade em ver os marcadores da via e outros marcadores que os ajudam a conduzir com segurança.

O construtor americano Ford superou este problema, conseguindo fazer que os seus carros autónomos percorressem com sucesso, um circuito fechado coberto de neve, para isso a Ford criou mapas em 3D de alta resolução que trazem informações, não só sobre a estrada, mas também o que está acima da estrada, como sua topografia, sinais próximos e marcos.

Desta forma, mesmo quando o carro não consegue “ver” as marcas da faixa de rodagem, pode utilizar outros marcos para se localizar no mapa. Assim, os carros autónomos deixam de ficar perdidos em estradas sem marcas de via claras.

Por exemplo, o dono da Tesla, Elon Musk, relatou este problema a um grupo de jornalistas, segundo referência do Washington Post, afirmando que a falta de marcas na faixa na muito movimentada Interestadual 405 perto do Aeroporto Internacional de Los Angeles é um erro e uma dificuldade para os veículos autónomos.

A difícil leitura da estrada pelos carros autónomos

Quando os carros autónomos não conseguem distinguir as vias por onde tem de circular, torna-se quase impossível avançarem ou mudar de faixa em segurança. Andrew Ng, um dos principais cientistas da Baidu, escreveu que será necessário fazer mudanças nas infraestruturas para que os carros autónomos possam ser bem-sucedidos em estradas normais.

autonomo

A condução nas cidades é muito mais difícil para os carros autónomos do que circular em autoestradas e existem algumas razões para essa diferença. A mais óbvia é que existem menos “coisas” para se preocuparem numa autoestrada, com um padrão definido e um só sentido de trânsito.

As cidades são uma mistura de diferentes intervenientes, desde outros veículos automóveis, motos, motociclos e velocípedes e ainda pedestres, e não convém esquecer os animais e outros obstáculos específicos de lugar para lugar, como postes e arvores mal localizadas, obras e cones de trânsito, buracos no pavimentos, carros mal estacionados, passadeiras e cruzamentos.

A condução urbana e, dependendo do GPS em grande medida, então quando se entra em áreas onde há um monte de edifícios altos, é difícil receber o sinal de GPS, aí existirão falhas recorrentes e, naturalmente, os carros autónomos não podem interagir da mesma forma que os seres humanos, o que é problemático.

A era do carro autónomo está ao virar da esquina

Os automóveis totalmente automatizados não bebem, não adormecem ao volante, não conversam ao telefone ou colocam maquilhagem enquanto circulam, com os seus sensores e processadores, navegam pelas estradas sem qualquer destas falhas humanas que podem resultar em acidentes.

Mas o cérebro humano ainda é melhor do que qualquer computador para tomar decisões diante de acontecimentos súbitos e imprevistos na estrada, por exemplo, uma criança a correr para a rua, um ciclista em movimento, uma bola a surgir a rolar na estrada ou um ramo de árvore caído na via.

Os carros autónomos estão ao virar da esquina, mas ainda existe um caminho para ser percorrido, talvez rápido, ou não, talvez penoso, ou não, de qualquer forma estamos perto, contudo o caminho ainda não está concluído.

Foto | Dr. Nico Kämpchen, Flickr