“Saúde” das marcas prejudica segurança

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Num mundo onde cada vez mais se sabe das evoluções do mundo automóvel, a todos os níveis, sejam relativos a segurança rodoviária, sejam de eficácia de funcionamento dos motores, seja de eficiência da utilização dos combustíveis, sendo tudo divulgado aos sete ventos pelos meios de comunicação tradicionais e reforçado através das redes sociais.

Alguns construtores de automóveis estão a colocar-se em situações complicadas a diversos níveis, mais grave é quando é um grupo que tem problemas, as repercussões espalham-se de forma mais rápida e com consequências mais significativas para as marcas desse grupo e para os consumidores que adquiram veículos que ostentem esses emblemas, sendo talvez a mais relevante o fato da “saúde” das marcas prejudicar a segurança.

Para começar a estabilidade financeira de um grupo afeta sempre a capacidade de evoluir e de garantir a estabilidade que qualquer comprador procura, ninguém compra um carro de uma marca que está a debater-se com problemas… exceto se o preço for algo assombrosamente baixo, mesmo assim a eventual falha no abastecimento de peças de substituição e a dificuldade ou quase impossibilidade de revender o carro após algum tempo geralmente retraí alguns clientes mais destemidos.

O grupo que está a passar por dificuldades é o conglomerado Fiat Chrysler Automobiles (FCA), atualmente é o único grande fabricante de automóveis no mundo, com mais dívidas do que dinheiro, ou seja tecnicamente está falido! Fazendo uma análise fria ao estado da empresa as perspetivas de futuro da mesma não parecem muito auspiciosas, o gigante italo-americano está em claros apuros.

10 pontos problemáticos

Os motivos da embrulhada foram vários, alguns a nível de gestão pura, outros a nível técnico e ainda alguns de carácter tecnológico. A Automotive News apurou as 10 razões principais para o problema do grupo, focando-se no mercado americano mas é possível perceber a dimensão e profundidade do problema, as razões são:

1. GM não quer uma fusão
Recentemente, o CEO da FCA, Sergio Marchionne, fez saber que ele está interessado em avançar com uma fusão com a General Motors, mas existe um “pequeno” entrave, a gigante americana não está interessada, apesar da ansiedade de FCA para encontrar um parceiro. A administração da GM não quer nem ouvir falar da proposta, embora Marchionne diga que a fusão seja algo bom demais para ser ignorado.
2. FCA é obsoleta

Olhando para o panorama geral, a FCA está atrás seus principais concorrentes em várias categorias, incluindo na margem de lucro, nas despesas em Investigação e desenvolvimento, na economia de combustível, na tecnologia híbrida, na condução autónoma e muito mais. Mas de acordo com Marchionne, a contrutora não está “desesperadamente em tudo” e ele acredita que a empresa pode sobreviver por conta própria “na sua mediocridade”. Naturalmente, Marchionne preferia não ter o grupo que lidera na mediocridade e gostaria de ter um parceiro forte, e de grande dimensão, de onde pudesse beneficiar, mas onde ambas as partes fossem beneficiadas pelas sinergias criadas.

3. A maioria dos modelos da FCA foram ultrapassados pela concorrência
A única parte marca do portfólio da FCA onde atualmente existe “vida” é na Jeep, pois os modelos Wrangler, Cherokee e Grand Cherokee estão a vender bem e a faturar ainda melhor. Só para perceber a dimensão do problema, esses três modelos são os únicos, dos 23 que o grupo disponibiliza para o mercado americano, que estão à frente do que a concorrência oferece nos respetivos segmentos. O líder do grupo diz mesmo que “a Jeep é a minha melhor apólice de seguro, pois foi o melhor do negócio por uma muito, muito grande margem” referindo-se à compra do grupo Chrysler pela Fiat.

FCA CEO

4. As margens são baixas
Apesar de tomar medidas drásticas para aumentar a margem de lucro dos modelos à venda, em especial na América do Norte, as margens da FCA ainda permanecem bem mais baixas que as dos seus concorrentes, isto apesar de ter aumentado os preços de venda aos distribuidores.

5. As plataformas são antiquadas
Talvez uma das principais razões pelas quais FCA está perdendo na” luta” do ranking de vendas é que muitos dos veículos mais vendidos da empresa ainda são construídos em plataformas que outros fabricantes já considerariam antiquadas. Por exemplo, o atual Dodge Charger, Challenger e Chrysler 300 são todos baseados em uma antiga plataforma da Mercedes-Benz, que foi usada pela primeira vez no ano 2005, pela marca americana, pois o Chrysler 300 foi fabricado com base do Chrysler LX, que por sua vez era derivado do Mercedes-Benz W211 (Classe E), cuja produção ocorreu entre2003 e 2009. Os componentes derivados do carro germânico são a suspensão traseira, os bancos dianteiros, a coluna de direção e a transmissão automática de 5 velocidades. A suspensão dianteira foi adaptada do Mercedes-Benz W220 (Classe S) produzido entre 1999 e 2006. Numa época que os construtores estão produzindo plataformas mais leves e mais versáteis, a FCA fica para trás. Assim conclui-se que a “saúde” das marcas prejudica a segurança.

6. Os custos de produção são muito altos
Na verdade, não há uma única plataforma do grupo FCA sobre a qual estejam a ser produzidos mais de um milhão de veículos por ano, isto aumenta os custos de fabrico. Atualmente, todas as plataformas FCA são reaproveitamentos de arquiteturas da época que Marchionne entrou na Fiat, em 2004, muito antes de assumir a americana Chrysler que havia falido, em 2009. Para conseguir atingir os padrões dos novos crash-test cada novo modelo, construído sobre essas plataformas antigas, tornaram-se mais pesados do que seu antecessor, o que significa que pioraram a nível da economia de combustível, mas o pior é que comparativamente aos outros a diferença ainda aumentou mais, pois maioria dos fabricantes de automóveis estão a avançar para plataformas mais leves e com materiais diferentes como o alumínio, e o novos Bmw tem agora o chamado “Carbon Core”, estruturas reforçadas com fibra de carbono para reduzir em muito o peso. Ao longo dos últimos anos, a desvantagem de peso do modelos do grupo FCA tem continuado a aumentar

7. Consumo elevado de combustível
No ano passado, nos Estados Unidos, a frota de modelos da FCA atingiu a média de 11,15 Lts/100kms (21,1 mpg), que é o pior entre todos os fabricantes de automóveis de grande volume. O líder atual é a Nissan, que tem uma economia de combustível média de 8,78 Lts/100kms (26,8 mpg). Ainda mais irônico, o único híbrido pode comprar a partir de qualquer das 11 marcas da empresa é o Ferrari Laferrari, que para além de custar 1.400.000 dólares, todos sabemos que não é um carro que tem qualquer interesse na economia de combustível. Na verdade há um outro modelo, o Fiat 500e, mas só é possível de comprar na Califórnia e em alguns pontos de venda do Oregon, mas até mesmo o próprio Marchionne disse que espera que ninguém o compre, pois a empresa a empresa perde cerca de 14.000 dólares por cada Fiat 500e vendido. Só o vendem para conseguirem cumprir a quota de veículos de zero emissões exigidas pelos americanos. Toda a motorização deste modelo na verdade nem é feito pelo grupo, é adquirido à Bosch…

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8. FCA deve reforçar Operações Globais
Olhando para o mercado global, a FCA ainda é a soma das quatro regiões regionais que só estão interligadas marginalmente, e as vendas estão diminuindo onde era líder, mais concretamente no Brasil, e a empresa tem uma presença muito pequena no mercado com o maior potencial de crescimento que atualmente se situa na zona da Ásia-Pacífico. Outras construtoras, incluindo a Toyota, GM, Ford e Hyundai todos têm presenças fortes na zona, especialmente na China.

9. Sem “State of the art” tecnológico
O grupo italo-americano é também um dos poucos fabricantes de automóveis que não fizeram nenhum progresso com carros ligados e comunicantes, nem com condução autónoma, tecnologias que Marchionne chama de caixa de problemas de Pandora.

10. Mais dívidas do que dinheiro
Por último, a FCA tem uma saldo negativo líquido de 8 mil milhões de dólares, enquanto todos os seus concorrentes apresentam uma situação positiva a nível financeiro. Marchionne atribui alguns dos problemas de liquidez da empresa para a dívida herdada da Chrysler, tendo comprado a Associação Beneficiária dos Empregados Voluntários do UAW com 11 mil milhões de dólares em dinheiro e ter que reembolsar os empréstimos do governo americano. O grupo também teve de investir milhares de milhões na modernização das fábricas anteriormente detidas pelo antigo dono da Chrysler, a Cerberus. O CEO reconhece que a empresa têm trabalho a fazer e avançará com modelos híbridos e elétricos, que começam com a próxima geração do Chrysler Town & Country, uma minivan a ser lançada no próximo ano.

O conglomerado tem de rapidamente dar a volta à presente situação para ter hipótese de sobrevivência com a estrutura empresarial atual ou então corre o risco de ter que ser desmembrada e eventualmente ser vendida às partes, e pelo que parece para isso já existem interessados, muitos e de diversos pontos do globo, nomeadamente alemães e chineses.

Foto | Karlis Dambrans, SocialisBetter, FCA