Condução autónoma: Quando o veículo «fala» com a estrada, a segurança aumenta

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A 24 de agosto de 2018, um dos 66 veículos de condução autónoma da Apple teve um acidente. Isto é relevante porque é o primeiro que a empresa tem e porque a culpa, uma vez mais foi de um humano. Em concreto, do que conduzia o carro atrás, que circulava depressa e não travou. Contudo, a primeira coisa que a imprensa perguntou foi “O carro da Apple poderia ter antecipado o impacto?”

Uma pergunta assim feita a um condutor humano não teria sentido. O condutor de trás tem a culpa porque, além de ir demasiado depressa, não travou ao ver o Lexus RX450h da Apple. No entanto, ao tratar-se de tecnologia, é exigido que se faça uma manobra evasiva ou, pelo menos, informar os passageiros que se aproxima um impacto de que não se podem desviar. E com certo grau de razão.

Num teste realizado entre a SEAT e a Telefónica, o veículo autónomo e a rede de telecomunicações, respetivamente, demonstrou-se de que forma aumenta a segurança quando o veículo fala com a estrada. Se as máquinas o fazem melhor do que nós, é coerente que lhe passemos os comandos, mas também lhes exijamos responsabilidades.

«Edge Computing»: Condução autónoma em rede

A rede 5G irá suportar a linguagem que vai permitir aos veículos autónomos comunicar entre si e com a estrada. O chamado V2X ou “vehicle to everything”.

Graças a testes realizados em circuito urbano, comprovou-se que usar este tipo de ferramentas aumenta a segurança rodoviária, especialmente se for utilizado o edge computing ou a aproximação da tecnologia ao sítio onde os dados são necessários, neste caso, o veículo.

Para estes testes, que decorreram como parte do projeto Cidades Tecnológicas 5G em Segóvia, a SEAT cede um Altea conectado (mas não autónomo). Quer dizer, uma pessoa conduz o carro em vários ambientes. A ideia é usar o 5G e o protocolo V2X para avisar o condutor de perigos próximos.

 

A SICE, empresa fabricante e gestora da infraestrutura rodoviária, integrou diferentes tipos de sensores em vários semáforos na cidade de Segóvia e a FICOSA esteve encarregue do dispositivo de comunicações C-V2X incluído no veículo.

É muito trabalho que, sem dúvida vai dar resultados no futuro. De acordo com o estudo Moral Machine do MIT, estima-se que 300 mil vidas possam ser salvas por ano graças à condução autónoma. No teste de Segóvia, o computador de bordo avisava com êxito o condutor de qualquer alteração de cores no semáforo, assim como peões a passar a estrada. Outra alternativa é usar o Smart driving da Ford. 

O acidente da Apple poderia ter sido evitado?

Voltando à notícia de abertura do artigo, o SEAT Altea do ensaio não poderia ter evitado o acidente que o Lexus da Apple sofreu, mas poderia ter avisado o ocupante do veículo de que um objeto se aproximava por trás. Pelo menos, se a infraestrutura da estrada estivesse sensorizada. Deste modo, todos os carros próximos saberiam que um veículo seguiria na rede a uma velocidade excessiva.

Na prática, seria como conduzir fazendo uso de um radar, como o que muitos veículos já têm incorporado. Em vez de apenas travar quando passa alguém pela frente, (AEB ou travagem de emergência autónoma), este radar informa-nos de elementos aos quais deveríamos estar atentos, por exemplo, um ciclista, pela sua vulnerabilidade, ou uma viatura fora de controlo.

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Acontece que o Lexus era autónomo, mas com muito pouca conetividade, enquanto que ao SEAT Altea estava altamente conectado, mas dependia de uma pessoa. Quando os veículos autónomos forem também veículos conectados, o acidente será uma exceção. Mas para isto é preciso contar com infraestruturas bastante caras.

V2X: quando o veículo fala com a estrada

Que a imprensa tenha apontado para o carro da Apple e tenha perguntado porque não fez nada para evitar o acidente, é um bom sinal com vista à condução autónoma. Ainda que a culpa seja do condutor detrás, confiamo o suficiente nos veículos autónomos para lhes delegar responsabilidades e que se encarreguem da nossa segurança. Ainda não chegaram ao mercado (faltam alguns anos) e já lhes pedimos que salvem vidas ou bens materiais.

De facto, a desconfiança das pessoas face aos veículos autónomos caiu a pique há um ano, de acordo com o estudo «2018 Deloitte Global Automotive Consumer».

Em 2017, 72% dos alemães e 65% dos franceses tinham reticências perante o veículo autónomo. Em 2018 esta desconfiança baixou 45%, 45% e 37% respetivamente. E isto passado apenas um ano!

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Não está claro o que chegará primeiro, se será a condução por humanos em cidades altamente conectadas, com o é o caso do SEAT, ou a condução 100% autónoma. A Google já tem fechadas 80mil vendas do seu carro Waymo, que pretende que os seus condutores os usem como táxis autónomos, de modo que o caminho já começou.

Deste caminho faz parte, claro, a confiança do grande público no veículo autónomo, mas também o custo da infraestrutura. Alterar todos os semáforos de um país e colocar estações de rádio a cada poucas centenas de metros, pressupõe um grande mudança.

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