Mais potência implica mais segurança?

Ines Carmo

22 May, 2020

Quando estamos à procura de um carro antes de comprar, pode acontecer que depois de escolhermos o modelo de que gostamos, numa versão mais básica porque não nos sobra dinheiro, apareça alguém com um conselho: “cuidado que pode ser pouco, compra com um motor superior, porque uns cavalos a mais fazem sempre falta, podem ajudar num apuro e ganhas em segurança”. Fica com uma sensação ingrata, não por andar mais, mas sim pela falta de segurança que o pode deixar a pensar.

Existe a crença por parte de alguns condutores que quanto mais potente, mais seguro é um carro. Trata-se de uma afirmação simples sobre um assunto complexo. A que se referem? Que um modelo de segmento superior e mais potente é mais seguro? Que dentro de um mesmo modelo as versões mais desportivas são mais seguras? A que tipo de segurança se referem? Estabilidade, segurança em caso de impacto. Aqui respondemos às dúvidas sobre se mais potência é mais segurança num carro.
potência

Existe uma velocidade suficientemente segura?

Se falarmos estritamente da potência do motor, num mesmo modelo de carro, mais potência significa mais capacidade de aceleração e de velocidade em qualquer circunstância. Há um limite quanto à velocidade a partir da qual um veículo se pode considerar inseguro?

É uma barreira difícil de estabelecer, mas à partida, um modelo que tenha um mínimo de potência faz com que a sua condução seja agradável e relaxada. Assim, torna-se fácil para o condutor manter velocidades suficientes para não entorpecer a circulação em geral, algo que qualquer modelo de carro com menos de 30 anos também consegue cumprir. A partir daí a potência é questão de gosto do condutor, mas é difícil estabelecer uma barreira de segurança.

Uma referência subjetiva de potência para que um carro possa viajar na estrada com desenvoltura, é quando proporciona uma aceleração dos 0 aos 100 em menos de 15 segundos e uma velocidade máxima de 150km/h. para alguns parecerá pouco ou até ridículo, mas se são dados que até há pouco tempo eram regra em termos de segurança, porque não hão de ser agora?

A chave pode ser a aceleração

Quanto à aceleração, durante a condução podemos necessitar pontualmente de ganhar velocidade rapidamente numa ultrapassagem numa estrada de dois sentidos, especialmente se for numa subida, ou numa entrada numa via rápida. É agora que pode necessitar tanto da potência do motor como do seu próprio conhecimento enquanto condutor. Mas aqui a frase “uns cavalos a mais podem livrá-lo de um apuro” não só é falsa, como é uma crença muito perigosa. Quando um condutor sai de um apuro graças aos cavalos extra do seu carro numa entrada ou numa ultrapassagem, é porque o fez de forma arriscada, precipitada ou irresponsável. Uma vez na situação, efetivamente a potência pode ajudar a salvar o caso que o condutor criou de forma voluntária.

Um bom condutor é o que conhece e domina as capacidades do seu veículo, tenha este a capacidade que tenha, e quando conduz um veículo lento fá-lo com a mesma segurança do que com um mais rápido: se calcula que existe risco antes de iniciar uma ultrapassagem, não a iniciará nunca, se tem pressa, pensará que deveria ter-se levantado mais cedo em vez de aumentar os riscos na condução. Há uma infinidade de pessoas que nunca tiveram problemas, nem sequer situações de verdadeiro risco, com mais de 50 anos de condução e a bordo de carros de prestações modestas.

Existe uma situação especial na qual uma certa potência extra pode ser aproveitada para corrigir um efeito de sobreviragem (início de capotamento), mas é uma situação anormal pois os carros modernos tendem a subvirar (ir de frente), situação que se resolve de forma intuitiva soltando o pé do acelerador e virando mais o volante. É uma das razões pelas quais os nossos carros modernos têm tração e motor dianteiros.

A sensação de segurança

É possível que modelos mais potentes dêem mais sensação de segurança, mas não é algo intrínseco à potência do motor, mas sim, algo que deriva de ter maior distância entre eixos e largura, maior peso e suspensões suaves. Essa sensação é a mesma numa berlina grande dos anos 80, mas que só chegavam aos 90 cv.

É possível que muitos condutores se sintam mais seguros com um carro potente, porque aparentemente é mais “obediente” às solicitações do acelerador. Podem haver por detrás disso certo desconhecimento sobre o uso ótimo da caixa de mudanças e, por isso, antes de acelerar a fundo, fica a incerteza sobre se o carro irá responder ou não com potência suficiente. A resposta dependerá de estar ou não “metida” relação de caixa adequada.

Modelos mais potentes

Como tendência geral, um modelo notavelmente mais potente que outro será mais estável a alta velocidade pelas suspensões mais firmes, pneus mais largos e pode ter um sistema de travagem mais potente e mais resistente ao sobreaquecimento em condução desportiva. O fabricante adequou o chassis para aguentar essa maior potência, mas não é a potência do motor que o torna mais seguro.

A potência serve para corridas, não nos enganemos. Hoje em dia até as versões básicas de quase todos os modelos do mercado oferecem já potência mais que suficiente e prestações dignas de desportivos de há duas ou três décadas. Talvez o que tenha mudado são as necessidades impostas pelas tendências comerciais. A grande oferta de potências que há pode desorientar o comprador de um carro em relação àquilo que necessita. Às vezes procuram-se razões como desculpa para comprar os modelos mais potentes porque são mais divertidos de conduzir. Há que ter em conta que no tipo de mercado de consumo em que vivemos haverá sempre motores mais potentes aos quais se podem aceder. Qual é a potência suficiente? Isto é algo subjetivo, cada um tem o seu gosto. Antes os carros eram mais lentos e não se consideravam inseguros por isso. Poderiam sê-lo por uma segurança passiva muito inferior, falta de sistemas de segurança ativa como os travões ABS, mas não por falta de potência.

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Fonte: CirculaSeguro.com

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