Quando for mais velho

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Quando eu for mais velho, quero poder caminhar na rua sem sustos. Quero ir aqui e ali, sem medo que um carro ou uma moto me caiam em cima, e, num instante, apaguem toda a minha história, todas as minhas vivências e recordações.

Hoje, estou consciente de que o meu corpo já não é o que era, mas, não tenho a certeza se, quando for mais velho, vou ter essa noção. Os sentidos podem enganar-me e levar-me a uma confusão, que eu espero que me afete o menos possível.

Não vou ouvir o zumbido de uma mosca como ouço agora. Não vou ver com tanta nitidez a cara dos meus netos. Vou caminhar, seguramente, com menos agilidade, e posso até não vir a saber em que local devo caminhar. No entanto, o que menos queria que me acontecesse era morrer atropelado, tristemente jogado para o meio de uma rua suja.

Vou demorar mais tempo a reagir. Vai ser mais difícil movimentar-me. Vai ser difícil evitar os carros mal estacionados em cima do passeio, e, para os contornar, talvez tenha que passar pela estrada. Não sei se me vou lembrar sempre de usar as passadeiras, mas espero lembrar-me de as utilizar sempre que não estejam ocupadas por um carro mal estacionado, uma moto atravessada ou um camião em plena descarga.

Espero ainda poder perceber o funcionamento dos semáforos, mas não sei se, chegada a altura, serei capaz de o fazer. Espero que os outros possam perdoar os meus erros, tal como eu tentarei perdoar os que eles cometam.

Há quem diga que quando eu for idoso vão haver muitas pessoas da mesma faixa etária que a minha. Que os progressos da medicina nos vão ajudar a viver mais e melhor, e que a minha independência e mobilidade estão praticamente garantidas. É precisamente por isso que não me parece razoável que a conduta de uma pessoa ao volante possa acabar com a minha vida, de forma abrupta.

Quando eu for mais velho, também tu serás mais velho. E, certamente, também não vais querer morrer atropelado.