Carros autónomos entre avanços e recuos

 

O termo “carros autónomos” designa quaisquer veículos terrestres com capacidade de se deslocarem sem terem os controlos operados por um condutor humano. Funcionam incorporando um conjunto de tecnologias. Agregam sensores e sistemas de controlo para monitorizar o ambiente que rodeia o veículo e atuadores para manipular os controlos.

A programação do software determina quais as melhores opções e atua da forma que considera a mais segura e confiável. Mas o objetivo é superar o que poderia ser obtida por um condutor humano. Será que os avanços tecnológicos estão a caminhar no sentido da aceitação? Alguns percalços estão a tornar o caminho mais “agitado” que o previsto. Saiba mais aqui.

A indústria automóvel está a sofrer uma mudança de paradigma. O público está mais exigente, quer a nível ecológico como tecnológico, procurando soluções eficientes. Apesar das marcas começarem aos poucos a abandonar os combustíveis fósseis, procurando outros sistemas que deiam a resposta pretendida pelos consumidores. O carro autónomo poderá ajudar.

Todos os fornecedores de soluções necessitam de recolher informações e dados para conseguirem melhorar as suas aplicações. Mas a pressão estende-se a outras áreas. As entidades reguladoras, quer administrativas quer políticas, estão atentas à legislação de modo a adaptá-la aos novos desafios. Afinal, os carros autónomos irão afetar muito mais áreas que inicialmente muitos julgavam.

A história dos veículos autónomos

As propostas de veículos autónomos não são recentes. É um fato que as ideias inicias eram muito mais básicas e diretas. Mas a evolução da tecnologia, em especial no campo da automação e robótica, possibilitou que as propostas agora apresentadas. Estas tentam recriar as escolhas humanas e não o mero seguir de um caminho pré-determinado. Vejamos a evolução:

1939: Futurama- protótipo de veículos automatizados em vias dedicadas apresentado na Feira Mundial de Nova Iorque.

Década de 1950: a General Motors cria uma série de protótipos chamados de Firebird. O Firebird II possuía um sistema de condução automática baseada em um fio enterrado detectado por bobinas no veículo.

1966-1972: o robô Shakey é criado pelo SRI. É considerado o primeiro robô móvel a utilizar técnicas de Inteligência Artificial, utilizando um conjunto de sensores para navegar pelo ambiente.

1977: primeiro veículo robótico inteligente criado na Universidade de Tsukuba.

1985: Ernst Dickmanns e sua equipe desenvolve o veículo VaMoRs, uma carrinha Mercedes-Benz equipada com diversos sensores.

2004: DARPA lança o DARPA Grand Challenge, uma competição para estimular as pesquisas em veículos terrestres não tripulados. A competição, com 107 participantes, não teve nenhum vencedor.

2005: é realizado o segundo DARPA Grand Challenge, sendo vencedor o veículo Stanley da Universidade de Stanford.

2007: é realizado o DARPA Urban Challenge, terceira versão da competição do DARPA. Nesta competição, veículos autónomos deveriam navegar em um ambiente urbano simulado, devendo respeitar as regras de trânsito e atender diversos objetivos diferentes. O vencedor desta competição foi o veículo “Boss” da Universidade Carnegie Mellon.

Outros sistemas autónomos

Por curiosidade, existem outros meios onde os sistemas autónomos são usados há muito tempo. Em 1912, Lawrence Sperry, filho de Elmer Ambrose Sperry, inventou e testou em voo um instrumento automático de estabilização giroscópica para aviões com quatro giroscópios.

Vinte anos mais tarde, a Sperry Gyroscope Company (atual Sperry Rand) desenvolveu seu primeiro comando de voo com piloto automático para aviões modernos. Foi graças a este sistema de piloto automático instalado no avião de Wiley Post, o Winnie Mae, que o ajudou a realizar o primeiro voo a solo ao redor do mundo em 1933. Esse voo durou sete dias e 18 horas.

Mas existem também sistema idênticos na navegação marítima. O piloto automático para navios comanda o leme de direção recebendo sinais de correção emitidos por uma bússola giroscópica. O primeiro piloto automático para navios foi instalado em um navio-tanque da Standard Oil Company, no início da década de 1920.

Níveis de autonomia dos carros e das vias

Nem todos os veículos com sistemas de condução autónoma estão no mesmo patamar de evolução. Mas para começar é necessário determinar quais são os critérios possíveis de atingir, elencá-los e saber onde cada um se situa. Estes são os atualmente aceites pela industria:

1. Veículos com um ou mais sistemas de assistência, como programador de velocidade (cruise control). Alerta de saída involuntária de faixa de rodagem ou aviso de aproximação de outros carros em ângulo morto;

2. Automatização parcial, com radares e sensores que coordenam sistemas como o cruise control adaptativo (a velocidade é ajustada à do veículo da frente, travando ou acelerando automaticamente para manter a distância). Travagem automática de emergência. Correção automática por intervenção na direção da saída involuntária da faixa de rodagem;

3. Condução semiautónoma. O veículo é capaz de controlar todos os outros utentes da via. É capaz de circular de acordo com a sinalização horizontal e vertical e, através do cruise control adaptativo, efetuar ultrapassagens. Mas o veículo requer a supervisão permanente e controlo do condutor. Requer que o condutor mantenha as mãos no volante, se tal não se verificar, após alguns segundos, acende as luzes de emergência e imobiliza-se;

4. Condução autónoma. O veículo pode circular sozinho, mas, por questões de segurança, ainda é requerida a supervisão constante do desempenho do automóvel pelo condutor;

5. Condução autónoma total. Não há condutor, apenas passageiros. Escolhe-se o percurso e o veículo é responsável por tudo. Permite a quem segue no seu interior ler, trabalhar, ver televisão, ou até dormir.

Vantagens e desafios

Algumas das principais vantagens relacionadas com os veículos autónomos são:

Redução dos acidentes de trânsito provocados por fatores humanos;

• Possibilidade de indivíduos possuidores de deficiências, tanto motoras como visuais, utilizarem o automóvel sem auxílio de terceiros;

Aumento da produtividade já que o condutor pode realizar outras atividades durante o processo de navegação;

• Otimização dos recursos do veículo através da utilização adequada dos componentes;

• Aumento da capacidade de tráfego das vias com a redução das distâncias entre os veículos, em função de menor tempo de reação para travagens e previsibilidade de ações.

Os desafios que estes sistemas enfrentam são:

• Definição das responsabilidades legais sobre os eventos, entenda-se incidentes, provocados pelo veículo;

• Ajuste da legislação de trânsito para integrar os veículos autónomos;

• Desenvolver sensores mais capazes de perceção das condições de tráfego, principalmente de pedestres, ciclistas e animais.

A legislação e experiência acompanham a evolução

Alguns lugares do mundo já começaram a alterar a sua legislação para se adequar aos veículos autónomos. Em especial, nos locais onde se encontram os maiores desenvolvedores da tecnologia em causa. Quatro estados dos EUA permitem a circulação nas vias públicas, a saber, Nevada, Arizona, Flórida e Califórnia. Com a ressalva da permanência de um condutor humano no veículo para intervir em casos de emergência.

Por exemplo, desde janeiro de 2017, a Waymo possui cerca de 100 carros autónomos em Phoenix. Esta permite aos habitantes serem transportados de forma gratuita. Mas a empresa, subsidiária da Google, está a usar esta cidade do Arizona para recolher mais dados para a sua solução.

Passado mais de um ano, e beneficiando de algumas alterações legais, o serviço da Waymo irá sofrer alterações. Está previsto que os transportes passem a serem pagos. Mas além disso, este tipo de veículos prevê passar a circular sem a necessidade de um condutor presente no futuro.

Como esta mudança poderia despertar os receios da população, a empresa criou um vídeo onde elucida o funcionamento do sistema. Nele explica como os sensores do carro veem o mundo em redor e qual o seu comportamento durante a viagem.

A realidade dos carros autónomos em Portugal

Portugal e Espanha estão a se preparar para experimentar esta grande aposta da indústria automóvel. O acordo foi firmado entre o Secretário de Estado das Infraestruturas e pelo Subsecretário de Estado espanhol da Administração Interna.

Nele ficou assente que os dois países devem tentar estabelecer uma partilha de informações relativa às estradas e ao trânsito. Mas também, devem caminhar no sentido de definir regras que permitam “desenvolver a condução autónoma e contribuir para um uso mais harmonioso e bem-sucedido das tecnologias avançadas em veículos”.

Com base neste acordo os carros autónomos poderão ser testados em dois trajetos. Ficaram definidos os itinerários entre Porto e Vigo e entre Évora e Mérida. Para facilitar a recolha de informações e dados os percursos terão acesso à próxima geração de redes móveis, a rede 5G.

Noutros locais os carros autónomos também ganham terreno. Na cidade de Viseu o conhecido funicular será substituído por um veículo autónomo e não poluente. Cascais irá testar dois veículos autónomos destinados ao transporte público de passageiros. Além destes casos, em outubro, iniciar-se-ão testes deste tipo de veículos num trecho da A9, a Circular Regional Exterior de Lisboa.

Recuos e receios

Os carros autónomos são cada vez mais comuns, sendo abordado pelas pessoas quando conversam e pela comunicação social. Mas a verdade é que muitas pessoas ainda mantém uma forte desconfiança da eficiência e segurança deste sistema.

Os recuos são sentidos em especial no momento seguinte a algum acontecimento de grande impacto no público em geral. Em 2016, Joshua Brown, um norte-americano de 40 anos, sofreu um sinistro a bordo de um Tesla Model S. Este carro circulava em piloto automático quando, numa via rápida, um camião se atravessou à sua frente. Mas o sistema não detetou o obstáculo, do qual resultou a morte do “condutor/passageiro”.

Em março deste ano um outro acidente, com um modelo igual, teve o mesmo desfecho. Mas neste caso um relatório preliminar aponta para falhas no “piloto automático”. Pois o condutor tinha as mãos fora do volante. Mas segundo foi apurado, o carro acelerou nos segundos imediatamente antes do embate numa proteção lateral da via.

Um carro da Uber foi envolvido num acidente mortal com uma ciclista no inicio de maio. A empresa diz que aguarda pelo relatório oficial do National Traffic Safety Board, entidade que está a analisar o sinistro. Mas nas últimas semanas têm surgido cada vez mais pormenores. Desde o fato do condutor a bordo não ter reagido, mas também o fato da Uber ter reduzido o número de sensores nos seus veículos de teste.

Quando posso comprar um carro autónomo?

Ao que tudo indica, 2020 será o ano crucial para os carros “andarem” sós. Pois pelo menos sete projetos de carros autónomos apontam para esta data como o prazo final para o lançamento destes veículos. Estes lançamentos garantem revolucionar toda a indústria, desde o comércio, revenda, manutenção e, naturalmente, a própria condução.

Apesar do incidente mencionado na secção de recuos, o presidente da Uber, Dara Khosrowshahi, confirmou que a empresa continuará o desenvolvimento de condução autónoma. Esta confirmação foi dada no evento “Elevate”, em Los Angeles. Nele foi garantido que a aposta nesta tecnologia é para avançar.

Nenhuma das marcas, ou fabricantes de componentes e software, está a deixar esta evolução tecnológica de lado. Mas nenhuma quer correr o risco de ficar de fora do que os consumidores procuram. As entidades reguladoras e os governos irão apoiar inequivocamente esta tecnologia pois garantirá maior mobilidade e menor poluição. Com carros autónomos a eficiência melhora e a rentabilidade de uso dos veículos também.

Fotos | Wikipedia, Tesla