Será o ciclo WLTP mais realista que o NEDC?

Os consumos anunciados pelas marcas nunca foram consensuais, sempre levantaram grandes dúvidas sobre a sua exatidão. Afinal a culpa é do fabricante que não informou corretamente, ou do condutor que conduz de forma pouco económica?

No caso dos valores que as marcas alegam ser os consumos, existe a necessidade de homologar os valores anunciados. Será que essas entidades são pactuantes com os enormes desfasamentos? Agora existe uma nova fórmula de cálculo, alegadamente mais realista. Saiba quais as diferenças.

No momento da escolha de um novo automóvel, o consumo anunciado é um dos fatores de escolha. A verdade é que os consumos anunciados pelos construtores acabam por registar enormes diferenças face ao obtidos numa utilização real.

Mas, este facto, sempre gerou uma incerteza nos consumidores, que deixaram de acreditar nos valores que as marcas indicam. Para resolver esse diferencial alguns clientes simplesmente usam fórmulas “criativas”. Uns somam mais 3 ou 4 litros aos valores anunciados, outros duplicam o consumo anunciado pelo construtor.

A duplicação, numa primeira análise, pode parecer um exagero. Contudo se vive em zonas de relevo acidentado e com muita estrada de montanha a realidade não será longe desses valores. Porém não existe soluções milagrosas para estes casos, os valores serão sempre superiores aos anunciados.

Para reduzir essa desconfiança entrou em vigor na União Europeia em setembro de 2017 um novo método de cálculo, o WLTP que substitui o anterior NEDC. Até 1 de setembro de 2018 todos os veículos novos à venda terão de ser testados. Todos deverão apresentar os valores apurados no novo ciclo até 1 de setembro de 2019. Mas não será só por cá, em breve também será adotado na Índia e no Japão.

Este novo cálculo baseia-se num inquérito realizado a nível mundial com o objetivo de recolher perfis de condução reais. Os valores passam a ser definidos num intervalo e não num valor para cada situação. Quais são então as diferenças entre ambos?

Como era feito o cálculo de consumo anteriormente

A versão usada desde 1992, na Europa, era conhecido como NEDC (New European Driving Cycle). O novo cálculo é apurado através dos valores obtidos num novo ciclo de homologação, agora denominado de WLTP (Worldwide Harmonized Light-Duty Vehicles Test Procedures).

Assim convém perceber quais os problemas que o antigo sistema padecia e o que foi feito para os solucionar. O método NEDC era baseado num ciclo de homologação que previa apurar valores em ambiente controlado. Na verdade, os valores eram obtidos num laboratório, onde era simulado o ato da condução (e continuam a sê-lo, mas com parâmetros mais reais).

O ciclo NEDC é composto por uma primeira parte com a duração de 13 minutos. Nessa fase é simulada a condução em ambiente urbano, com vários momentos de pára-arranca. Posteriormente, na segunda fase, simula-se um percurso em estrada.

Nestes testes é permitido que, no início do teste, em banco de ensaio, a temperatura do propulsor possa estar já entre os 20 e 30 graus centígrados. Esta é a temperatura ideal para se conseguir a máxima eficiência num motor de combustão. Mais uma forma de obter valores muito favoráveis.

Potência e velocidades do antigo teste

Os testes NEDC estipulam ainda qual a potência média exigida ao veículo no momento do teste. O valor requerido é de somente 4 kW (5,4 cv), fixando o máximo nos 34 kW (46,2 cv). Assim, os motores trabalham muito abaixo da sua potência máxima.

Na verdade, durante o teste antigo não é exigido aos motores, durante os 20 minutos que dura a prova, qualquer aceleração brusca. Antes pelo contrário, os motores trabalham ao ralenti cerca de 25% do tempo! Este era um teste que beneficiava a obtenção de valores baixos de consumo pelos motores modernos.

Os motores atuais são concebidos para consumos particularmente reduzidos nos regimes de rotação mais baixos. No teste antigo a simulação “levava” o automóvel a percorrer 11 quilómetros, a uma velocidade média de 34 km/h. A velocidade máxima, de 121 km/h, é atingida uma única vez.

Durante todo o teste antigo todos os sistemas estão desligados. Todos mesmo, desde a iluminação, o ar condicionado, o sistema de som, os sistemas de infotainment ou de navegação. Tudo ajuda um pouco a baixar ainda mais as antigas médias oficiais de consumo.

Como é feito o novo cálculo de consumo

Comecemos pela sigla WLTP (Worldwide harmonized Light vehicles Test Procedure). Algo que traduzindo resulta em “Procedimentos Mundialmente Harmonizados para Testes de Veículos Ligeiros”.

Os valores apurados neste novo teste têm de constar nas informações disponibilizadas sobre o consumo de cada um dos modelos. Foi esta nova fórmula que provocou um aumento, generalizado, dos valores oficiais até então apresentados pelas marcas.

O novo teste é dividido em quatro partes, sendo todas realizadas a diferentes velocidades médias. Desde velocidades médias baixas, passando pelas médias, mas agora chega às altas e até às muito altas. Sendo executadas diferentes ações, comuns na condução quotidiana, como sejam travagens, desacelerações, total imobilização da viatura e outras.

Foram tidas em conta as situações com que um condutor se depara na condução quotidiana. Para tal a frequência, intensidade e agressividade de cada uma das fases foram variadas. Apesar dos testes serem executados num banco de ensaios, nos testes WLTP o veículo permanece mais tempo “em movimento”.

Outra diferença significativa do novo teste tem a ver com a temperatura ambiente considerada, agora são 14 graus centígrados, contra os 20 do anterior teste. A distância percorrida agora também é maior, antes eram 11 e agora são 23 quilómetros.

Como já referido anteriormente a velocidade média subiu, passou de 34 para 46 km/h, com uma velocidade máxima de 131 km/h, contra os anteriores 121 km/h do antigo teste. Os tempos de paragem agora foram reduzidos, os veículos passam 13% do tempo parados contra 25% no teste anterior.

O novo teste WLTP inclui no seu cálculo a existência de equipamento opcional. No teste é ainda levada em conta qual a massa e a aerodinâmica do veículo em teste. Fatores que também alteram os consumos obtidos.

Que diferenças foram apuradas?

A União Europeia divulgou uma comparação dos dois ciclos de homologação, aí consegue-se apurar aumentos de 11% nas emissões de CO2. No caso dos consumos a diferença é mais alarmante, veja os exemplos abaixo. Recordo que os valores piores foram obtidos nos testes a altas velocidades. Nos testes a baixas velocidades baixas o cenário não foi tão negro, mas mesmo assim foi negativo.

Cingindo-se só ao consumo o aumento no novo teste foi de 26%… em média! Mas passemos a exemplos. Num Opel Astra 1.4 Turbo 125 cv com caixa manual e carroçaria de cinco portas, que em ciclo combinado NEDC (o antigo teste) anuncia 5,1 l/100 km, no novo ciclo WLTP os resultados situam-se entre os 5,0 e os 5,8 l/100 km. O que significa que se situa entre uma possível redução de 2%, ou um possível aumento de 14%.

Mas ainda na mesma marca e modelo, vejamos o exemplo de um Opel Astra Sports Tourer 1.6 CDTi, com 136 cv, caixa automática, que anunciava 4,5 l/100 km no ciclo NEDC (o antigo teste), passa para um intervalo entre os 4,6 e 7,9 l/100 km. Neste caso a diferença é sempre para mais. Os resultados são entre os 2% e 76% de aumento de consumo.

Convém não esquecer que todas as alterações de consumo implicam uma correção dos impostos que incidem diretamente sobre as emissões de CO2. Pois, estes impostos são calculados com base nos consumos anunciados. Quanto aos consumos reais finais dos carros de cada um, o valor obtido varia muito conforme o “peso” do pé direito do condutor. A agilidade e o conhecimento da melhor relação de caixa e qual o regime de motor correto para mudar de velocidade também desempenha um papel crucial.

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