Pode a pandemia ensinar-nos algo sobre a segurança rodoviária?

Miguel Alves

28 May, 2020

Soames Job é o director do programa Global Road Safety Facility do Banco Mundial e num artigo de opinião que publicou refere que, à medida que o mundo enfrenta a trágica pandemia de COVID-19, também pode valer a pena considerar outra crise de saúde, que silenciosamente se arrasta há décadas, a dos acidentes de viação.

Os acidentes nas estradas matam 1,35 milhões de pessoas e ferem mais 50 milhões de pessoas a cada ano.

“Em vez de comparar a extensão do sofrimento e da morte causados por essas duas causas terríveis [COVID-19 e sinistralidade rodoviária], pode haver lições mais amplas que podemos aprender para salvar muitas vidas e muito sofrimento futuro”, refere este responsável.

Algumas dessas lições a serem consideradas após o desaparecimento da pandemia COVID-19, são sugeridas por Soames Job. Uma delas diz respeito à redução da exposição ao transporte rodoviário.

Menos emissões de gases de efeito estufa

“Embora os bloqueios tenham tido enormes impactos económicos e sociais, os benefícios do transporte reduzido identificado durante os bloqueios são profundos e vão além de reduções valiosas nas mortes por acidentes de trânsito e ferimentos incapacitantes. Esses impactos no transporte colocam em foco o valor da redução da exposição como uma intervenção para a segurança rodoviária. Até agora, a redução de exposição tem sido amplamente negligenciada, porque a segurança rodoviária se concentrou muito estritamente no próprio sistema de transporte rodoviário. Além disso, a redução do transporte rodoviário particular motorizado traz uma série de outros benefícios: menos emissões de gases de efeito estufa, poluição sonora e atmosférica, maiores oportunidades de transporte ativo, maior inclusão e conexão social. Devemos aproveitar as oportunidades futuras de capturar esses benefícios, ao repensar as cidades, opções de transporte coletivo, como metropolitanos, transporte aquático e sistemas dedicados de transporte rápido de autocarros, após a pandemia”, diz este especialista.

Soames Job refere que o teletrabalho foi uma oportunidade para “repensar o modo como as nossas sociedades operam, com benefícios que vão além do trabalho em casa”.

Reduzir necessidade de deslocações

O impacto profundo no transporte pode, no entender de Soames Job, “reduzir a necessidade de deslocações”, podendo “permitir incentivos mais fortes (ou mesmo regulamentação) para impulsionar o transporte de massa. O transporte público teria menos viagens para gerir e incentivar, embora ainda houvesse custos. Sem essas intervenções políticas, a parcela de passageiros que usam o transporte motorizado privado pode aumentar”. Para gerir isso, diz este perito, “o espaço público pode ser redesenhado para reduzir o espaço na estrada e permitir o seu redirecionamento para modos de transporte mais ativos e a separação da micromobilidade para segurança”.

Fazendo um paralelismo entre os acidentes de viação e a COVID-19, este especialista do Banco Mundial refere: Todos somos imperfeitosàs vezes julgamos mal os riscos, cometemos erros e, em várias circunstâncias, focamo-nos nos nossos desejos imediatos, e não no bem mais amplo. Assim, aceleramos, assumimos outros riscos ou simplesmente cometemos erros. Pode levar apenas um lapso momentâneo de concentração para causar um acidente fatal. Como seres sociais que gostam de estar com os nossos amigos, pode haver apenas um deslize inadvertido de distância social ou uma visita a um amigo assintomático para espalhar a COVID-19. As vítimas podem ser totalmente inocentes: ser atropeladas por um motorista em alta velocidade ou morar com uma pessoa que não seguiu o distanciamento social”.

Imagem: Max Pixels

--

Uma iniciativa da: