Como seria a estrada perfeita?

Duarte Paulo

26 May, 2020

Já parou para pensar em como seria a estrada perfeita? Aquela que oferece as melhores condições de segurança e conforto ao conduzir? Este é um exercício que inevitavelmente entraria no campo da ficção científica.

No entanto, assim como o “design” da estrada deve evoluir à medida que os veículos evoluem, podemos encontrar casos reais de estradas que se aproximam muito do que podemos considerar a estrada perfeita. Pelo menos para os carros que utilizamos hoje.

As estradas convencionais são menos seguras

Quando falamos de acidentes de viação, devemos inevitavelmente falar de estradas convencionais. Na Península Ibérica predominam estas vias. Por exemplo em Espanha representam mais de 90% do total de quilómetros da rede rodoviária e acumulam cerca de 75% a 80% das vítimas fatais que perdem a vida em estradas desse tipo.

A chave para essa maior taxa de acidentes está nas características das estradas convencionais:

– Para efetuar uma manobra de ultrapassagem, é necessário “invadir” a faixa que se aproxima, produzindo um maior risco de colisões frontais entre veículos;

– As interseções e cruzamentos são realizadas no mesmo nível, causando uma infinidade de situações de risco entre veículos que cruzam o caminho ou entram na via com velocidades diferentes;

– Os percursos são mais antigos com as curvas são mais apertadas. As estradas foram projetadas para carros com mais lentos e menos potentes. Aumentando o risco de sair da estrada se você não conduzir com especial cuidado ou se o limite de velocidade for respeitado;

– Os trechos montanhosos são mais frequentes, com declives acentuados, estradas estreitas e baixa visibilidade, que juntos causam inúmeras situações de risco de saída de estradas, colisões frontais, etc.

A tudo isso, devemos acrescentar as más condições em que muitos trechos de estradas convencionais podem ser encontrados. Embora mais numerosos, esses tipos de estradas suportam apenas 40% do tráfego. Portanto, as entidades competentes tendem a “relaxar” na sua manutenção e conservação.

Os bons exemplos…

Mas existem também bons exemplos de estrada perfeita, neste caso chamam-se autoestradas. Tanto as tradicionais com portagens, assim como as SCUT. Em Portugal, as autoestradas são vias de circulação separadas fisicamente, sem cruzamentos a nível, apenas acessíveis a veículos motorizados ligeiros e pesados, e com velocidade mínima de 50 km/h e máxima entre 80 e 120 km/h.

As autoestradas, em geral são ainda mais seguras do que as estradas convencionais. Antes de mais nada porque são projetadas para que os veículos mantenham uma velocidade constante de circulação, sem precisar constantemente de desacelerar e recuperar a velocidade. Estas são as diferenças que tornam as autoestradas mais seguras do que outras estradas:

– Um projeto bom, com estradas de acessos adequadas;
– Faixas de aceleração mais longas;
– Menos curvas, mais abertas e suaves;
– Menos declives e menos mudanças de inclinação;
– Capacidade de circular a uma velocidade constante;
– Melhor sinalização e iluminação;
– Boa manutenção da pintura das linhas;
– Iluminação de túneis adequada;
Sinalização vertical adequadas.

Mais, as autoestradas geralmente possuem piso em melhor estado, não apenas por serem estradas mais novas, mas por terem manutenção periódica pela concessionária. Estes cuidados garantem permanentemente um piso bom, sem fissuras e com melhor aderência. Esta qualidade é denotada especialmente em períodos de clima adverso. Este tipo de vias garante ainda melhores condições de assistência, uma vez que foram projetadas para facilitar o acesso a serviços de emergência e a rápida localização de veículos avariados ou danificados.

A tudo isso deve-se acrescentar que, é quase uma estrada perfeita com intensidades de tráfego relativamente baixa, devido ao fato de normalmente ser paga. Esse fato evita possíveis engarrafamentos e congestionamentos. No entanto, as entidades governamentais incentivam o uso dessas estradas com portagem. Mesmo as SCUT ajudam pois foram projetadas para desviar o tráfego de estradas mais perigosas.

…até vindos de Espanha

Como já foi mencionado anteriormente, as autoestradas são as estradas onde podemos encontrar os melhores projetos e as melhores condições de circulação. Pois os engenheiros, em todo o mundo, se esforçam para desenvolver inovações e avanços. Com o tempo, e a prova da sua efetividade, passam a ser adotadas em outros projetos.

Por exemplo, na versão espanhola do Circula Seguro já falaram sobre as inovações introduzidas na via Málaga MA-8407, perto da cidade de Montecorto. Um trecho de apenas 5 quilómetros de extensão que foi apresentado como “a estrada mais segura da Espanha”, em 2012, quase a estrada perfeita.

Obteve este título devido às suas características especialmente projetadas para a proteção dos condutores, e que incluíam elementos inovadores como painéis coloridos, postes de polímero de plástico e proteções especialmente projetadas para motociclistas . É um modelo de estrada que, embora já seja uma realidade atualmente em muitos lugares, infelizmente levará tempo para se tornar como norma em todas as estradas.

Inovações e tecnologia para a estrada perfeita

A pesquisa de inovações e avanços no projeto de estradas não apenas procura melhorar a segurança rodoviária, mas também nesses anos foi fortemente motivada por nossa preocupação com o meio ambiente. A reciclagem de resíduos e a utilização de materiais menos poluentes, com processos menos agressivos, ajudam o meio ambiente.

Ao mesmo tempo estes novos materiais e métodos oferecem melhores benefícios, como aumento da aderência, da resistência ou da visibilidade. Estas são algumas das vantagens do que passou a ser conhecido como “estradas verdes” e que também estão presentes hoje, mas devem ser generalizadas em um futuro próximo.

Outras inovações propostas são um pouco mais futuristas, mas merecedoras das melhores perspetivas. São propostas engenhosas, como tintas dinâmicas que avisam da presença de neve no asfalto, luzes interativas que só acendem quando o carro se aproxima ou sinais luminescentes, com ventoinhas, que avisam sobre possíveis fortes rajadas de vento.

Em geral, trata-se de aplicar inovações já presentes em nossas vidas, como TIC, Big Data ou Cloud Computing, no campo da segurança rodoviária e das obras públicas. Essas inovações trarão segurança e maior capacidade de mobilidade. Com um uso mais sustentável dos recursos. Nesses casos, procura-se que o condutor e o veículo estejam conectados às autoridades competentes, não apenas para oferecer melhor assistência, mas também para torná-la uma fonte de informações muito valiosa. As possibilidades são infinitas.

O dilema das estradas mais seguras, a velocidade

Existe um fator que afeta a segurança, a velocidade. Quanto mais seguras são as estradas os condutores tendem a ter um comportamento perigoso. A teoria explica que, quando ficamos mais confiantes, baixamos a guarda. E perante excelentes condições das autoestradas isso acontece. Porém adotamos uma atitude mais cautelosa e segura se a estrada estiver em más condições. E levanta o dilema de como existem medidas de segurança que afinal são capazes de produzir o efeito oposto ao pretendido, aumentando a taxa de acidentes.

Isso não significa que não devemos construir estradas tão seguras quanto possível, mas que também devemos nos esforçar para promover a condução responsável, por meio de campanhas de conscientização, programas de educação rodoviária, controle e vigilância nas estradas.

Alguns países ganharam a reputação de ter as estradas mais seguras do mundo, mas combinando boa infraestrutura com controles implacáveis. Tolerância ZERO ao consumo de álcool e drogas. Disponibilizando excelentes programas de conscientização e educação para seus cidadãos. Por exemplo, a Alemanha tem a famosa Autobahn, “tão segura” que não precisa de limites de velocidade. Mas a verdade é que seus baixos índices de acidentes se devem em grande parte à atitude responsável e cautelosa exibida pelos condutores alemães, que respeitam as regras de trânsito e não adotam velocidades excessivas, mesmo quando não são obrigados a fazê-lo.

Tudo isso nos coloca diante dum dilema. Ter as estradas mais seguras depende não apenas de engenheiros e obras públicas, mas também das autoridades de trânsito, como entidades reguladoras e de controle de tráfego. Mas, acima de tudo, depende de nós mesmos, como utilizadores, que podemos fazer bom ou mau uso dos veículos e da infraestrutura que eles disponibilizam para nós. Pede-se então bom senso.

Original | Jose Ramon Martinez Fondon
Imagens | iStock: JoeDunckley, trendobjects, algre, zhudifeng, hxdyl.26

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