Confinamento com menos acidentes, mas mais graves

Duarte Paulo

1 September, 2020

O confinamento deixou as cidades desertas, um pouco por todo o mundo.

O primeiro semestre de 2020 foi peculiar. As medidas implementadas pelas autoridades de saúde para evitar a disseminação do coronavírus Covid-19, nomeadamente o confinamento, levaram ao encerramento de muitas empresas e à paragem de diversas atividades económicas. Saiba de que forma é que se refletiu nos números da sinistralidade rodoviária.

Redução no número de acidentes

Como certamente se apercebeu, devido ao confinamento decretado, a circulação automóvel reduziu-se de forma significativa. Analisando os dados do relatório da sinistralidade rodoviária referente ao primeiro semestre de 2020, constata-se que todos os indicadores de sinistralidade também registaram uma redução face ao período homólogo de 2019.

Os números oficiais registam 11.501 acidentes com vítimas no primeiro semestre de 2020. São menos 5.167, ou menos 31%, do que em 2019. Neste período foram registadas um total de 167 vítimas mortais, que representam menos 59 do que as 226 no primeiro semestre de 2019, uma redução de 26,1%.

O cenário mantém-se no apuramento dos feridos tanto graves como ligeiros. Nos feridos graves o decréscimo foi de 25,7%. Pois os 779 casos de 2020 representarem menos 269 registos do que os 1.048 que se registaram em 2019. No caso dos feridos ligeiros a redução foi de 33,5%, com 13.352 casos em 2020. São menos 6.734 pessoas feridas do que em 2019 onde o número atingiu os 20.086 feridos ligeiros.

A explicação para a redução

Na conferência de imprensa onde os resultados do primeiro semestre foram divulgados, o presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), Rui Ribeiro, e os representantes da Polícia de Segurança Pública (PSP), intendente Nuno Carocha, e da Guarda Nacional Republicana (GNR), major José Beleza, não se inibiram em considerar que o confinamento decretado, a própria pandemia e os estados de emergência e calamidade explicam a redução global registada.

O número de acidentes com vítimas mortais é efetivamente mais baixo no primeiro semestre de 2020 face ao período homólogo. Contudo o período pós-confinamento revela que os acidentes estão a se tornar mais mortíferos. Esta é uma tendência alarmante, afirmam as autoridades.

Aumenta a gravidade dos acidentes

Existe uma propensão nos números que é preocupante e que os responsáveis pela apresentação dos dados da sinistralidade comunicaram. Nos dois primeiros meses do ano existiu uma tendência de decréscimo nos indicadores de sinistralidade, que se acentuou durante o período de confinamento devido a uma quebra drástica na circulação rodoviária. Mas essa tendência começou a inverter-se no que diz respeito ao índice de gravidade dos acidentes com vítimas, com menos acidentes, mas mais vítimas mortais.

Esses números agravaram-se no período pós-pandemia. Assim a tendência revelou-se mais alarmante a partir de junho. Nos dados preliminares de julho, o primeiro mês do segundo semestre, apontam para um agravamento ainda maior, adiantou Rui Ribeiro, admitindo preocupação nesta temática.

“Este é o problema que nós estamos a enfrentar hoje. O início do ano começou com uma tendência em melhoria do que se passou no ano de 2019. Com a crise pandémica, naturalmente, havendo menos veículos a circular, todos os indicadores de sinistralidade diminuíram de intensidade e com a retoma no mês de junho, e já no mês de maio, passámos a ter menos acidentes com vítimas, menos feridos leves, menos feridos graves, mas comparativamente a 2019 passámos a ter um número crescente de vítimas mortais, disse o presidente da ANSR em declarações ao Observador.

Aumenta a gravidade dos acidentes pós-confinamento

Continuando afirmou que os acidentes têm um índice de gravidade maior, ou seja, o número de acidentes com vítimas mortais por número de acidentes com vítimas é maior e isso é uma coisa que nos preocupa e essa é a mensagem que queríamos deixar para todos os condutores. Apontando o excesso de velocidade, os despistes e o peso crescente das distrações e infrações por uso do telemóvel ao volante como possíveis causas do agravamento dos números.

Analisando os números

Em junho de 2020 foram assinalados cerca de menos 800 acidentes com vítimas, em relação a 2019. Mas aumentaram as mortes, atingindo o número de 36 vítimas mortais só nesse mês. Este número representou um aumento de 4 pessoas que faleceram face aos números do ano transato.

O intendente Nuno Carocha, da PSP, em declarações ao Observador, revelou preocupação com a retoma de atividade de forma mais alargada que é esperada para setembro. Sobretudo no que isso implica para a taxa de ocupação da rodovia com aumento da densidade do tráfego e, potencialmente, para o incremento da sinistralidade.

“A taxa de ocupação da via rodoviária tem aumentado de forma gradual, mas a frequência dos acidentes está a aumentar a uma taxa superior. Isso deixa-nos preocupados porque em setembro, com o retomar da normalidade da vida económica, da vida académica, com o retomar das aulas presenciais, da dinâmica das famílias mais próxima do que é o nosso normal em termos de sociedade portuguesa vamos ter uma maior ocupação da rodovia. E a manter-se este crescendo poderemos ter aqui um agravamento que queremos de todo garantir que não aconteça”, afirmou o intendente da PSP.

Fotos | Wikimedia, PublicDomainPictures

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