Duarte Paulo

6 October, 2020

Analisando a mobilidade em mudança

Em outro artigo já falei da mudança do paradigma da mobilidade, mas a cada dia que passa esse fato parece mais próximo e real. Para ter a noção mais aproximada do que será o futuro, a curto e médio prazo, nada melhor que ouvir diretamente o que é que os utilizadores de veículos procuram. Saiba mais aqui.

O ADAC (Allgemeiner Deutsche Automobil-Club) é o maior clube automóvel da Europa, estando sedeado em Munique, na Baviera, Alemanha. Foi fundado em 1903 com o nome “Deutsche Motorradfahrer-Vereinigung” sendo alterado para a designação atual em 1911. Possui 18 milhões de associados na secção automóvel e 1,5 milhões de membros na associação motociclista. Este último número torna-o o maior do mundo nesse segmento.

Este clube elaborou um estudo em conjunto com o “Zukunftsinstitut”. Este instituto foi fundado em 1998 e teve uma influência decisiva nas tendências e pesquisas na Alemanha desde o seu início. Hoje, o instituto é um dos mais influentes “think tanks” em tendências europeias e pesquisas futuras e é a fonte central de informação e inspiração para todos os tomadores de decisão e pensadores alemães. Estas duas entidades alemães elaboraram um conjunto de antevisões para a evolução previsível da mobilidade para os próximos 22 anos.

Aumento da procura e fusão de conceitos

A mobilidade, quando ocorre de forma “correta”, torna a vida do dia-a-dia mais relaxante e eficiente. Assegurando que a cidade, ou região, consigam uma maior prosperidade económica e social. Esta é uma exigência da sociedade atual, uma forma de tornar universal, económico e atraente o uso dos meios de transporte. Para melhorar a sua eficácia e eficiência a própria oferta de meios está a alterar-se, adaptando-se e evoluíndo.

É esta ebulição de novos meios, novos intervenientes, novas tecnologias e novas formas de fazer transações que torna o setor da mobilidade um dos mercados de maior crescimento no mundo. As famílias americanas investem mais de 1 bilião de euros por ano em mobilidade. Na Alemanha o valor aproxima-se de 215 mil milhões, o que representa cerca de 2.600€ “per capita” anuais. Um em cada sete euros do seu rendimento vai para serviços que permitem o transporte, segundo dados da Comissão Europeia de 2016.

Os alemães percorrem cerca de 1.200 biliões de quilómetros enquanto passageiros todos os anos, seja de carro, comboio, autocarro, avião ou barco. Desde 2000, o transporte de passageiros na Alemanha aumentou mais de 11%. A Comissão Europeia prevê o aumento continuado da exigência de mobilidade para valores próximos dos 1.300 biliões de quilómetros enquanto passageiros até 2040.

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Os meios são muitos

Cerca de 75% destas distâncias serão efetuadas de carro. Pois este continuará a ser o meio de transporte preferido pelos alemães. Ao fim ao cabo, os padrões de mobilidade são moldados pela conveniência de se ser capaz de viajar de forma independente.

A mobilidade individual é de tal forma considerada fundamental, que muitos não a querem abandonar, mesmo pesando os prós e contras. Em 2040, segundo o estudo, o carro continuará a ser a forma de transporte capaz de garantir flexibilidade em termos de tempo e localização.

O adeus ao carro como o conhecemos

Apesar do descrito no parágrafo anterior, o carro sofrerá mudanças no que toca ao seu aspeto prático, forma de utilização e propriedade. Nem tudo continuará como dantes. Na verdade, as estatísticas não conseguem definir quando será atingido o ponto de viragem da própria mobilidade.

O que é percetível é que estamos no início duma nova era de mobilidade que poderemos denominar de múltipla. Trata-se duma revolução semelhante ao que o mundo viveu aquando da invenção do carro, há 125 anos. Escondido atrás da aparente continuidade está uma evolução do sistema de mobilidade que não pode ser subestimada.

O carro pessoal, há muito um símbolo de liberdade e independência e que transmite personalidade e estatuto social, está a perder a sua principal vantagem face a outras formas de transporte: tendo em conta os congestionamentos das cidades, o carro já não é a forma mais eficaz para ir de A a B, para todo o lado e a qualquer hora. Em determinadas circunstâncias existem outras alternativas mais rápidas, menos poluente e mais económicas.

A chegada da mobilidade inteligente

Em especial nos centros das grandes cidades, o carro vai ter muitas dificuldades. Para manter a sua posição hegemónica atual terá que conseguir articular-se com os transportes públicos. Mas não de forma simplista, a mobilidade do futuro, exigirá que a integração seja inteligente e pragmática. Só assim o carro poderá sobreviver, mesmo que numa versão distinta da que conhecemos.

Assim, e apesar dos automóveis de passageiros continuarem a ser um importante meio de transporte, vão deixar de ser a nossa primeira escolha lógica. Na verdade, serão um dos elementos de um novo sistema de mobilidade integrada com outros meios alternativos.

A atual crise que o automóvel passa é também a sua maior oportunidade. Segundo o estudo alemão em 2040 os carros serão um meio para um fim. Deixarão de ser uma forma de escape como foram nos anos 60, 70 e 80 do seculo XX. Serão encarados somente como meio de se deslocar. Sendo mais uma peça do puzzle em que se prevê se transforme a mobilidade humana. Será o elemento central de uma gestão energética sustentável e inteligente. E assim, o estatuto da mobilidade vai virar-se para a mobilidade inteligente.

A mobilidade em Portugal

Em Portugal as empresas também estão atentas e estão se adaptando para o que será o futuro. Pois os consumidores já estão preparados para as mudanças e novas formas de “consumir a mobilidade”. Um estudo do Avis Budget Group concluiu que 46% dos portugueses estão abertos a soluções como serviços “on-demand” ou de subscrição, como alternativas à propriedade automóvel.

Nesse sistema, as ofertas dos operadores de MaaS (Mobility-as-a-service) não se limita aos TVDE’s. A oferta é muito diversificada e abrange as opções tradicionais de transportes públicos e táxis. Mas não só, podem passar pela cedência de utilização de carros, motas, bicicletas e trotinetas de forma partilhada. Ou ainda boleias, aluguer e subscrição de automóveis ou uma combinação destes todos.

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A mobilidade em mudança passa por transportes tradicionais que se renovam na forma de utilização

As empresas podem ser as precursoras da mudança

O mercado dos carros de empresas também terá um peso crucial na adoção de novas modalidades de mobilidade. Pois quando as empresas adotarem determinado modelo os seus funcionários ficarão familiarizados com eles, podendo optar particularmente por modelos idênticos, ou passar a informação a familiares e amigos divulgando um novo modelo de mobilidade.

Para o lado das empresas existem benefícios fiscais que podem ser um aliciante importante. As empresas que promovam a mobilidade dos seus colaboradores atráves de transportes públicos, com passes sociais, tem a imputação de do custo 130% no IRC. Idêntica vantagem é aplicada na compra de bicicletas ou na contratação de sistemas de carsharing e bike-sharing.

Os sistemas de carsharing têm sido uma das soluções de mobilidade mais usadas por muitas empresas, além das próprias viaturas de empresa em conjunto com o táxi e o TVDE. O futuro está aí e Portugal também está a encarar as mudanças de forma realista. As empresas mais pequenas do ramo devem se preparar para esta mobilidade em mudança senão ficarão para trás e fora do negócio.

Fontes | ADAC e Fleet Magazine
Fotos | Matthias Ripp, sferrario1968, Tumiso

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